Um olhar para os corpos flutuantes e isolados de hoje

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |


No espetáculo “Anderland”, solidão e desejo são temas abordados
Sabine Wenzel
No espetáculo “Anderland”, solidão e desejo são temas abordados

Do livro “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera, a diretora Toula Limnaios pinçou algumas ideias que a levaram a desenhar o espetáculo “Anderland”, atração de hoje, em única sessão, no Grande Teatro do Sesc Palladium.

Ainda que a relação entre o texto e a coreografia não seja muito direta, de acordo com a fundadora da cie. toula limnaios, o título serviu para estimular a concepção de algumas imagens presentes nesse trabalho. “‘Anderland’ é uma montagem muito visual. Não há nenhuma fala no palco e as imagens funcionam como poderosas metáforas que nos levam a pensar em situações que se alternam entre momentos de tensão e leveza”, observa Toula Limnaios, fundadora do grupo que leva o seu nome.

Nascida na Grécia, mas atualmente radicada em Berlim, a artista chega com os seus bailarinos a Belo Horizonte após se apresentar em Londrina e Salvador. Aqui, onde também realizou um workshop, ela encerra o projeto Pauta em Movimento promovido pelo centro cultural. Ela conta que “Anderland” estreou no segundo semestre de 2011 na Alemanha e veio na esteira de “Every Single Day”, projeto daquele mesmo ano.

“Os espetáculos foram criados como um díptico. Embora você não precise ver um para entender o outro, eles têm uma conexão. Em ‘Every Single Day’, nós lidamos com a rotina e com o absurdo que pode ser a repetição das coisas que fazemos no nosso dia a dia”, recorda a coreógrafa. “Já ‘Anderland’ aborda outras questões como o excesso de informações que nos bombardeiam no presente, além da sensação de solidão e isolamento, apesar de estarmos conectados quase o tempo todo”, acrescenta Toula.

Ao contrário dos volumes de areia, ocupam agora o palco recortes de jornal, ventiladores e cortinas transparentes que propõem outro tipo de visualidade.

“O plástico primeiro funciona como uma divisão entre o público e os dançarinos, mas também propõe outras possibilidades de interpretação, ao configurar uma espécie de território imaginário. A luz sobre os corpos expostos dessa maneira também sugere um efeito de prisão”, observa a artista.

Em outros momentos, os bailarinos surgem deslocados, como se flutuassem naquele espaço. Para Toula, isso reflete algo em que vem pensando recentemente. “Tenho a impressão que nós estamos vivendo muito mais atrelados a uma dinâmica relacionada ao modo como experimentamos o tempo do que os espaços. Hoje, por meio da internet, podemos virtualmente estar em vários lugares e em nenhum ao mesmo tempo”.

Ela acrescenta: “Além disso, no cotidiano, somos atingidos por um grande fluxo de informação, e uma notícia sobre um avião da Malásia, que desaparece com cerca de 300 pessoas, por exemplo, comove as pessoas em um dia e depois disso todo mundo esquece. Navegamos por esse mundo de informações sem que, de fato, isso produza algum significado permanente”.

Sem se fixar num fio narrativo, ela sublinha que a estrutura da montagem é ancorada em livres associações. “Tenho a impressão que algumas montagens muito narrativas limitam a nossa imaginação. Em ‘Anderland’, as pessoas podem fazer as relações que quiserem, de acordo com sua própria experiência”, conclui.

Agenda

O quê. Apresentação de “Anderland”

Quando. Hoje, às 21h

Onde. Grande Teatro do Sesc Palladium (rua Rio de Janeiro, 1.046, centro)

Quanto. 1 kg de alimento não perecível ou R$10 (inteira)

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