Brindes sorteados e dinheiro extra motivam longa jornada

Por necessidades financeiras, trabalhadores querem continuar trabalhando para empresa terceirizada

iG Minas Gerais | Ana Paula Pedrosa e Queila Ariadne |

Alírio Ferreira Campos Junior, motorista terceirizado da Anglo American pela Tetra Tech
MARIELA GUIMARAES / O TEMPO
Alírio Ferreira Campos Junior, motorista terceirizado da Anglo American pela Tetra Tech
Das 50 pessoas ouvidas ontem em Conceição do Mato Dentro, apenas seis manifestaram o interesse de se desligar da Tetra Tech. As outras, queriam continuar trabalhando para a empresa, apesar das jornadas chegarem ao dobro das 44 horas semanais previstas na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). A maioria dos empregados da Tetra Tech e das outras terceirizadas da Anglo prefere ficar por necessidades financeiras.  O salário médio é de R$ 1.150, mas os funcionários chegam a receber mais do que o dobro deste valor com as horas extras. Um motorista que trabalhou 160 horas extras por mês, sendo 15 dias direto sem intervalo, disse, durante os depoimentos, que se submete à jornada porque “é casado, tem dois filhos pequenos, a esposa está desempregada e precisa aumentar o salário”.  Um outro motorista relatou que chegou a trabalhar 30 horas seguidas e, em outras ocasiões, teve apenas três horas de repouso entre o fim de um expediente e o início do outro. Ele afirmou que como forma de “motivação” as empresas sorteiam brindes para quem trabalha em feriados e recessos e para quem cumpre as metas. No fim do ano foram sorteados celulares, TVs e até um carro.  Alírio Ferreira Campos Junior, 44, é um dos que quiseram a rescisão de contrato com a Tetra Tech. Ele conta que trabalhava, em média, cem horas extras por mês. “Já teve mês em que eu fiz 120 horas extras. Saía de casa às 6h e voltava às 19h. Já aconteceu também de eu chegar em casa às 3h e sair de novo para o trabalho às 6h”, lembra.  Trabalhando na empresa como motorista desde setembro de 2011, ele desenvolveu um problema no joelho e, em setembro do ano passado, obteve um laudo de um ortopedista do Serro, onde mora, para afastamento. “Mas a médica do trabalho da Tetra Tech disse que eu estava apto, depois mudou de ideia e eu fiquei parado de setembro a dezembro”, conta. Mesmo afastado, ele só recebeu a guia do INSS em dezembro, por um erro da empresa. “Nesse intervalo, fiquei sem salário”, reclama.  “Entrei na Justiça pedindo meu pagamento e, agora, o que eu quero é ser desligado da empresa com os meus direitos”, afirma. Ontem, após reunião com os Ministérios Público do Trabalho (MPT) e do Trabalho e Emprego (MTE), representantes da Tetra Tech e da Anglo concordaram em demitir os seis funcionários interessados em sair. “O acordo garante a eles o direito de saírem de uma empresa onde foram submetidos a condições de trabalho análogo à escravidão, recebendo tudo o que têm direito”, explica o coordenador do Projeto de Combate ao Trabalho Análogo ao de Escravo da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego em Minas Gerais, Marcelo Campos.   Inclusão em 'lista suja' pode fazer empresa perder financiamentos Essa é a primeira vez que a Anglo American tem o nome ligado diretamente ao trabalho escravo. Em novembro de 2013, uma força-tarefa do Ministério do Trabalho (MTE) e do Ministério Público do Trabalho (MPT) resgatou 160 pessoas nessas condições nas obras do Minas-Rio, sendo cem haitianos vítimas de tráfico de pessoas, e 60 nordestinos. Na época, quem foi autuada foi a Diedro, que prestava serviços à mineradora.  As empresas que submetem os trabalhadores a condições análogas à escravidão podem ser multadas e incluídas na “‘lista suja” do Ministério do Trabalho, o que significa a perda de direito a financiamentos públicos e privados durante dois anos. Há ainda um pacto empresarial com a participação de mais de 200 empresas que não negociam com quem integra a listagem.  O MTE vai fazer um relatório fiscal reunindo todos os autos lavrados na operação relativa ao projeto Minas-Rio. Cada auto vai virar um processo administrativo e, se for julgado procedente, as empresas serão punidas. O relatório deve ficar pronto até 15 de maio, quando será enviado MPT e à Procuradoria da República.  “Vamos avaliar os autos e tomar as providências. O que vimos com os depoimentos de hoje foram pessoas que ficaram doentes por jornada excessiva de trabalho. Quem é submetido a isso sofre dano existencial, porque a pessoa é impossibilitada de organizar a vida”, afirma a procuradora do MPT, Elaine Nassif.

 

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