E a sujeira virou arte

O artista Drin Cortês é pioneiro em Belo Horizonte no grafite reverso, que limpa os muros ao criar desenhos

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Copa. Rosto de político mineiro foi alvo do grafiti reverso para criticar o Mundial
ADRIANA LAGARES/divulgação
Copa. Rosto de político mineiro foi alvo do grafiti reverso para criticar o Mundial

Complexo da Lagoinha, 7h. Os carros se espremem à procura de espaço no congestionamento. Cada pisão no acelerador de um motorista traz mais fumaça desperdiçada pelo ar. Dia após dia, a poluição invisível dos canos de descarga vai grudando nos muros junto à fuligem de fogueiras acessas por moradores de rua, até que não seja mais possível distinguir o limpo original do sujo acumulado. É nesse momento que surge o artista visual Pedro Drin Cortês, 27. Com um pano úmido, um pincel e uma garrafa d’água – e nada além –, ele tem transformado a paisagem da capital mineira ao usar a técnica do grafite reverso, que consiste em apagar a sujeira para criar desenhos que dialogam com a problemática da cidade. O reverse grafitti, ou grafite reverso, ganhou os holofotes no meio cultural após o paulistano Alexandre Orion, 27, desenhar centenas de caveiras na sujeira do túnel Max Feffer, em São Paulo, em um trabalho que durou 13 madrugadas de dedicação no ano passado. O que parecia uma pintura branca sobre uma estrutura metálica preta, acabou constrangendo os agentes da prefeitura daquela cidade, ao descobrir que não havia uma gota de tinta na feitura da imagem. Tudo foi feito só com um pano e água. Foi nesse contexto que o grafiteiro, ilustrador e artista visual Drin Cortês resolveu enxergar o Complexo da Lagoinha, em Belo Horizonte, que além de carregar um trânsito intenso diariamente, abriga a maior concentração de usuários de crack da capital. Formado em artes visuais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o artista tem sido pioneiro em transformar as ruas da capital mineira em galerias de arte a céu aberto para o grafite reverso. “Eu passava aqui todo dia indo para a faculdade e me chamava a atenção a sujeira pontual desse lugar. Então comecei a interferir nesse espaço”, justifica. Seu primeiro trabalho no grafite reverso transborda sensibilidade. O rosto da cantora Amy Winehouse, desenhado em 2009, dois meses após a morte da cantora, demorou quatro horas para ficar pronto sobre a fuligem de fogueiras acessas por moradores de rua. A imagem ficou mais de um mês intacta, sem sofrer a interferência de pichadores ou outros artistas de rua. Em junho do ano passado, Drin Cortês deu início à série “Cracks da Copa”, que tinha a ideia de desenhar políticos conhecidos do país e relaciona-los à Copa do Mundo. O primeiro a ser retratado foi o senador mineiro Aécio Neves, em um desenho de quase três metros de altura em que o político aparece sorridente ao lado de um símbolo da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Neste ano, porém, o foco do artista é outro. A convite de O TEMPO, ele fez o primeiro grafite reverso de uma nova série que pretende ocupar vários pontos do Complexo da Lagoinha. O trabalho consiste em desenhar rostos de pessoas desaparecidas registradas na Polícia Civil, e que tenham em sua história alguma relação com as drogas. “Esse lugar respira o problema da droga. O usuário de crack muitas vezes é tratado de forma hostil. Essa é uma forma de as pessoas passarem por aqui e olharem duas vezes para aquilo que a sujeira esconde. E que, na verdade, elas não veem porque não querem”, diz. Drin Cortês tem a plena consciência de que o grafite reverso, assim como a arte feita na rua e para a rua, é efêmero. Enquanto pincela água e esfrega o pano úmido sobre a fuligem, ele confere se os policiais militares do outro lado da rua vão abordá-lo. “Acontece direto de eles acharem que eu estou pichando, aí tenho que me justificar”, pontua. Depois de quase duas horas de trabalho, surgem um par de olhos tristes, o nariz e a boca de uma mulher com um semblante duro e impassível, típico dos cartazes de desaparecidos. O grafite é finalizado sem assinatura. Em poucos dias, na verdade, ele deve desaparecer, anônimo. “Essa arte foi feita para isso. Fazemos o grafite limpando a sujeira só porque a sujeira existe ali. É uma provocação que vai durar até quando houver fuligem e gente a ser instigada”, atesta.

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