Contornar o incontornável

iG Minas Gerais |

Não se trata de ser pessimista ou torcer pelo pior. Mas é impossível ver com bons olhos o desenrolar dos preparativos e a própria realização da Copa do Mundo. Fora a inversão de prioridades na gestão da política pública, a gastança descontrolada e o patriotismo oportunista denunciados sistematicamente desde a escolha do Brasil como sede do Mundial, o país está mergulhado em uma crise social sem precedentes. E não há como simplificar a questão reduzindo o problema a um governo ou um partido, apesar da necessidade de responsabilizar, sim, os atuais governantes. Há uma falência de um sistema, de um modo de viver e de se relacionar. Na noite de terça-feira, mais um protesto na zona Sul do Rio, mais uma morte. A manifestação acontecia justamente para denunciar o excesso de violência das ações policiais nas favelas cariocas, as quais resultaram na morte de um dançarino na comunidade do Pavão-Pavãozinho nesta semana. E, enquanto se pedia paz e justiça, outro assassinato ocorria. E, é claro, com o mundo inteiro olhando para o Brasil, essas contradições vão se tornar mais agudas. Se de um lado movimentos sociais vão aproveitar legitimamente esse holofote para reivindicar melhorias, por outro, o aparato policial e jurídico do governo federal e dos Estados irão aumentar a repressão, de forma poucas vezes vista, para tentar contornar o incontornável. A menos de 50 dias do início do Mundial, é seguro afirmar: o choque é inevitável, só é difícil precisar ainda a proporção desses confrontos e suas consequências. Na Bahia, onde precipitou-se uma nova greve da PM, dando início a horas de caos e selvageria nas ruas de Salvador e da sua região metropolitana, a resposta do poder público dá uma dimensão de como o jogo será jogado. O vereador e líder do movimento grevista, Marcos Prisco, foi alvo de uma ação liminar do Ministério Público Federal (acatada pela Justiça), pedindo sua prisão por danos causados pelo movimento grevista em 2012, e, uma vez detido, foi transferido para Brasília e colocado em uma cela comum na Papuda. Ou seja, além de criminalizar o movimento grevista, a Justiça ainda patrocinou uma quase pena de morte, pois permitir a prisão de um PM em meio a bandidos comuns é atentar contra a sua vida. Não se trata mais de bradar pela não realização da Copa, pois esta ocorrerá de qualquer maneira e à força, se for preciso. “A Copa já era!”, como, de forma definitiva, argumentou o professor da USP Jorge Luiz Souto Maior – leitura obrigatória: http://blogdojuca.uol.com.br/2014/04/a-copa-ja-era/. O momento agora é de refletir sobre como irão se desenrolar manifestações e repressão do Estado. A fatura do Mundial ainda está em aberto e assim permanecerá por muito tempo, independentemente do resultado da seleção brasileira dentro de campo.

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