Não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe

iG Minas Gerais |

As palavras pronunciadas pelo senador Aécio Neves bem resumem o sentimento da maioria da nação, insatisfeita e desorientada, ainda difusamente, pela ausência saneadora de lideranças capazes de conquistar o poder como promessa missionária: “O país nos cobra, exausto e indignado, a necessidade de uma reforma política em que não haja qualquer espaço para conivência, aparelhamento, compadrio e desvios de condutas”. Ao proferi-las em sítio cívico de Minas e do Brasil, o ilustre congressista interpretou a percepção ainda não cristalizada dos brasileiros descontentes, que esperam, indignados, não um salvador da pátria, como lhes enfiaram com o instrumento do abuso da boa-fé, explorada muito além das mentiras sem peias pelos caminhos do logro, da enganação, da falta de escrúpulos e da indiferença a qualquer princípio de lealdade com o delegante do mandato político. Nesse campo infecto e apodrecido, ambiente do vale-tudo, vão arrasando os terrenos limpos onde ocorre o debate em torno de realizar o bem de todos – o compromisso mais profundo e vinculante da representação popular. Desaparecem os homens e passam a reinar os bichos, como na fábula imortal de George Orwell. No Brasil, não cabe mais o triste fim dos acontecimentos ocorridos na “Granja dos Bichos”, nome mudado para “Granja do Solar” pelo governador Napoleão, conforme refere o narrador e autor: “As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco”. Quase 12 anos passados, o Brasil não dispensa, mas tampouco espera do poder que quer se eternizar as reformas mencionadas pelo ex-governador no 21 de Abril, na Ouro Preto do tempo, cujo significado se renova e se projeta todos os anos para o futuro. É imperioso combater a conivência que outra coisa não é senão o envolvimento com o que é repelido pelo código de ética pública. Sem esse, nenhum governo se sustenta porque não merece respeitabilidade, acatamento e obediência; quando o malfeito, o crime de qualquer natureza, é admitido, desaparece a legítima autoridade. Também o aparelhamento, além de exclusivista e antidemocrático, induz a administração pública, cuja neutralidade deve ser preservada, ao facciosismo, à confiança de impunidade e ao primado da irresponsabilidade. O compadrio é a consagração do “Mateus, primeiro os teus”, prática nojenta que faz do serviço público um celeiro de vantagens indevidas; o desvio de conduta, de qualquer natureza e em qualquer nível, é sempre a praga que destrói os padrões de dignidade que devem ser apanágio do verdadeiro servidor público. Tudo isso desemboca em devastador resultado: a disseminação do privilégio, pernicioso em si, desqualifica quem o prodigaliza e quem o recebe, e incita a população discriminada à descrença mortal dos valores democráticos, à formação do exército inconformado dos excluídos, à mesquinhez e ao esgarçamento da honra de governar. E humilha o povo, que não quer ser submetido.

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