Vá ao teatro e mate sua mãe

Sofisticada Cia atrita biografias de seus integrantes com espetáculos para falar de relação com suas progenitoras

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Diálogo. “Medeia”, “Esperando Godot” e Abdias do Nascimento dialogam com biografias dos atores
Guto Muniz
Diálogo. “Medeia”, “Esperando Godot” e Abdias do Nascimento dialogam com biografias dos atores

O nome da peça provoca risos nervosos e uma certa incompreensão de quem o lê. Outras pessoas se perguntam se não seria, talvez, uma comédia escrachada que vai expor as relações entre mães e seus filhos. Mas fato é que o espetáculo “Como Matar a Mãe – 3 Atos”, que estreia hoje, no Teatro João Ceschiatti, faz um trajeto entre o biográfico e o ficcional.

“Em 2011, nós começamos a conversar e planejar algo que fosse realmente autoral e que nós mesmos pudéssemos desenvolver como atores e diretores”, destaca Soraya Martins, umas das atrizes e diretoras da peça.

Ao lado de Léo Kildare e Fabiane Aguiar, o trio, então, chegou ao assunto que norteia o trabalho: a relação com cada uma das mães. “Percebemos que era algo bastante recorrente nas histórias que contávamos”, destaca ela.

A morte da mãe proposta pelos três artistas não se trata de uma morte física, mas sim de sua simbologia. “Estamos falando dessa passagem da vida em que é preciso negar os pais, matá-los. E se é realmente possível fazer isso”, indaga a artista.

Soraya destaca que mesmo o fio da memória que é puxado pelos três atores/diretores da peça é algo que não deve ser interpretado como a verdade, mas sim uma versão dela. “A memória basicamente é ficcional, porque ela é pautada pela lembrança. Ou seja, como eu vi e percebi um acontecimento. Existe uma ficcionalização porque as coisas se passaram já há muito tempo”, ressalta.

A temática autobiográfica serviu de potência para buscar outras referências dentro do próprio teatro. Divida em três atos, a peça revisita clássicos com uma roupagem nova. Os atos são intitulados: “Medeia de Leandro e Leonardo”, “Encontramos Godot – Flash Beckett” e “Não fui uma Paquita – Dialogando com o Sortilégio”.

O último ato, inclusive, dialoga com temáticas já pesquisadas por Soraya, como seu mestrado “Identidades Afro-brasileiras: Sortilégio, Anjo Negro e Silêncio”, em Teoria da Literatura, pela Universidade de Letra (Fale/UFMG).

“Esse encontro com a ficção foi muito natural. E nem sempre foi com mães. No caso de Beckett, por exemplo, fomos atrás das mulheres de ‘Dias Felizes’ (uma das peças mais importantes do dramaturgo irlandês)”.

E as mães dos atores da peça? O que será que acham dessa história de matar a própria mãe? “Nossas mães estão num misto de apreensão, curiosidade e desconfiança. Amanhã será a primeira vez que elas verão qualquer coisa do espetáculo e daí nós saberemos o que acham nossas mães de tudo isso”, revela a atriz.

Esse é o trabalho de estreia da Sofisticada Companhia que, premiado pelo Prêmio estímulo da Fundação Clóvis Salgado, pôde dar vazão aos seus desejos. “Somos muito próximos há bastante tempo, mas esse é nosso primeiro trabalho juntos. Tínhamos o desejo de fazer algo juntos e faríamos de qualquer forma. Com esse prêmio ficou mais fácil”, garante Soraya.

Agenda O quê. “Como Matar a Mãe – 3 Atos”

Quando. De hoje a sábado, às 20h30; domingo, às 19h

Onde. Teatro João Ceschiatti do Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1.537, centro)

Quanto. R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada)

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