Faces da realidade

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Ferreira Gullar escreveu que a arte não revela a realidade, mas a inventa. Disse ainda que é impossível para um pintor representar fielmente a realidade, que a imagem de uma montanha não é a montanha, por mais fiel que seja a pintura. Ao ler, viajei para o futebol. As análises que fazemos e as imagens que vemos em um jogo também não representam fielmente a realidade. Podemos fazer ótimos comentários técnicos e táticos, conhecer todas as estatísticas e informações, as úteis e as inúteis, mas nem sempre isso é o mais importante. São muitas as realidades. Com frequência, ao ver um gol, não percebemos os detalhes nem a série de lances, alguns por acaso, que antecederam a jogada final. A TV costuma mostrar só o último toque. Se eu não tivesse visto Roberto se preparando para entrar em meu lugar, durante o jogo entre Brasil e Inglaterra, na Copa de 1970, não teria a ousadia de driblar vários ingleses e passar a Pelé, que deu para Jairzinho fazer o gol. No momento de um atleta decidir se passa ou se chuta para o gol, não sabemos se ele segue suas intuições, sua inteligência corporal, ou se, em uma fração de segundos, mapeia a posição dos companheiros, dos adversários e do goleiro. A decisão instantânea depende muito do equilíbrio emocional. Isso não aparece nas estatísticas. Faz parte também da realidade. Às vezes, não entendemos a realidade. Após a vitória do Brasil sobre a Holanda, na Copa de 1994, eu e o saudoso mestre Armando Nogueira ficamos um longo tempo, na redação da TV, vendo e revendo, milhões de vezes, em todos os ângulos, o gol de Romário. Ele corria e, para alcançar a bola, deu um impulso, ficou com as duas pernas no ar, sem nenhum apoio, e, mesmo assim, com total equilíbrio espacial, colocou a bola no canto. Genial! Passo de uma realidade a outra. Ontem, Mourinho, mestre do futebol de resultados, fez uma retranca e conseguiu o empate em 0 a 0. O placar já estava definido antes do jogo. Não houve nenhuma grande chance de gol. O Atlético de Madrid cruzou mil bolas na área, mas a defesa do Chelsea não tem baixinhos, como a do Barcelona. Hoje, Bayern e Real Madrid, os dois melhores times do mundo, disputam a primeira partida da semifinal da Liga dos Campeões da Europa. O Bayern gosta de pressionar, ficar com a bola e comandar o jogo. O Real é mais cauteloso, traiçoeiro e usa muito bem o contra-ataque, com Bale e Cristiano Ronaldo. Assim, o Real pode ganhar a partida, com lançamentos nas costas dos zagueiros, que atuam adiantados. O Bayern sabe dos riscos e se prepara para isso. Por recuperar a bola com facilidade, dá poucas chances de contra-ataque. Grêmio e Atlético, os dois fora de casa, correm muitos riscos na Libertadores. “Viver é perigoso” (João Guimarães Rosa). No futebol, mais ainda.

Jogo difícil O Atlético continua no limiar da eficiência. Não brilha, não convence, mas também não decepciona. É uma equipe mais equilibrada do que era com Cuca, porém com o equilíbrio em um nível mais baixo. Hoje, é um jogo difícil. Até uma derrota por um gol de diferença, desde que o Atlético faça um, é um bom resultado. Autuori precisa definir os quatro que atuam mais adiantados. Com Ronaldinho e Guilherme, muda o sistema tático. Com os dois, não tem funcionado bem. Tardelli tem atuado muito mal. Fernandinho é importante nos contra-ataques. Colocar, durante a partida, Neto Berola e Marion, mesmo quando o ataque não estiver bem, piora a qualidade, pois os dois são muito inferiores.

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