Um bom negócio

iG Minas Gerais |

“Foi um mau negócio”. A sincera confissão feita no Senado Federal pela presidente da Petrobras, Graça Foster, sobre a aquisição da refinaria norte-americana de Pasadena foi um ato de coragem, mas não suficiente para desfazer o enredo que deixa em lençóis sujos a empresa-símbolo do Brasil. A questão que remanesce é: depois de oito anos do ato consumado, quem será punido por transgressão ao ordenamento legal? O que importa é chegar às respostas objetivas que impliquem responsabilização de agentes, desmontagem de conluios entre a “res publica” e os negócios privados e a devida apenação de envolvidos. Ao reforçar a abordagem da presidente Dilma de que a compra da refinaria se deu pela não apresentação de duas cláusulas por parte do então diretor internacional Nestor Cerveró, Graça Foster foi fiel ao “script” recomendado pelo Palácio do Planalto, mas se obriga, para preservar a imagem técnica, a dar continuidade às investigações internas que mandou realizar. É imperiosa a resposta às indagações que correm pelos contingentes de formação de opinião e já chegam aos ouvidos periféricos. Como é sabido, o balão da opinião pública começa a encher com os ares insuflados de grupos do meio da pirâmide e ganha volume com as ondas que, em círculos concêntricos, descem até as margens. A condição para desinflar reside no aparecimento de respostas diretas sobre as responsabilidades dos gestores públicos. Daí a pergunta que se faz ao ex-diretor: por que a proposta apresentada omitiu cláusulas que obrigavam a Petrobras a comprar a outra parte da unidade? Responde ele: porque eram irrelevantes. O caso remete a uma reflexão sobre as teias de interesses que se multiplicam na administração pública. Os desvios, veredas escuras e teias de corrupção que agem nos intestinos das estruturas públicas, nas três instâncias federativas, produzem o monumental PIB do desperdício. Sob outro olhar, são utilizados também para encher os cofres de tios Patinhas e agregados. O desconsolo é constatar que o discurso de “choque de gestão”, “renovação de métodos”, “meritocracia”, de tão banalizados, não chegam a sensibilizar a numerosa categoria dos gestores públicos. Não se criaram no país meios para a implementação de uma gestão moderna, racional, sob critérios de metas, resultados, eficiência e eficácia. Ora, na antevéspera de um pleito eleitoral que tende a ser um dos mais contundentes de nossa história, um grande bem que os candidatos fariam seria o compromisso com uma profunda reforma no campo da administração. Que deveria abrigar os territórios técnicos; a adoção de critérios de mérito e qualidade no aproveitamento de quadros; a transparência absoluta de contas e processos de licitação; a demissão sumária de dirigentes de empresas e autarquias flagrados em ilícitos, com o respectivo processo de apuração; a abertura de canais com os consumidores, e a facilitação de acesso às investigações da mídia, entre outros aspectos. Não é mais possível conviver com a mania de “jogar a sujeira por baixo do tapete”. O ciclo da gestão eficaz pode ser aberto com a adoção do costume de reconhecer o erro. E acabar com a mistificação.

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