Hermeto fala sobre o seu asco pelo rock n' roll

"Toda a onda do rock e do funk contemporâneo, que você vê na mídia hoje, não me atrai porque acho que os caras não tocam bem", diz músico

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Poli-instrumentista revela sua aversão ao rock n’ roll
Rudi Bodanese / DIVULGAÇÃO
Poli-instrumentista revela sua aversão ao rock n’ roll

Sem papas na língua, Hermeto Pascoal fala sobre música ruim produzida no Brasil, seu asco pelo rock n’ roll e a frustração com o funk. Além disso, o compositor alagoano lembra histórias sobre sua relação com o mito do jazz Miles Davis e o maestro Tom Jobim, seu amigo, de quem o Bruxo de Alagoas ainda guarda uma conversa de elevador que mudou os rumos da bossa nova.

Entrevista Você comentou que está compondo compulsivamente. As músicas são para algum projeto específico?

Nunca faço nada programado. Se eu disser que eu vou fazer uma coisa com toda a certeza do mundo, como gravar um disco, eu não faço. Eu lembro que tinha compromisso de entregar uma gravação ou terminar um arranjo no estúdio e sempre deixava para a última hora porque me irritava a obrigação. Muitas vezes eu terminava de escrever uma música no táxi, indo para o estúdio gravar, só para desafiar o tempo. A obrigação do tempo é a desgraça do mundo. Recentemente você chegou a dizer que poderia gravar um disco popular e que achava que não se faz mais música boa no Brasil hoje. Isso é verdade?

Olha só, eu respeito todo mundo que faz música, porque mesmo que eu não goste, é um trabalho. Agora o que eu não gosto é de gente tocando instrumentos por tocar. E isso acontece demais. Você vê bandas, conjuntos musicais que simplesmente copiam um solo de jazz desconhecido porque aquilo é o máximo que eles conseguem: se esconder atrás de outro talento. E penso que a gente tem que criar, se reinventar, não se acomodar. Essa sua visão tem algo a ver com o fato de você não gostar de rock n’ roll?

Não é especificamente com rock. Eu realmente não gosto de rock, não me faz a cabeça. Mas o funk, por exemplo, essa coisa que chamam de funk popular, sei lá,aquilo também não me conquista musicalmente. Toda a onda do rock e do funk contemporâneo, que você vê na mídia hoje, não me atrai porque acho que os caras não tocam bem. Mas, de novo, tenho bastante respeito por quem se propõem a fazer música. É que, para mim, música ruim é como pegar uma lata de doce de leite e encher de sal: você sabe que tem algo bom ali, mas o gosto, o sentimento é péssimo. Parece que existe um corpo sem alma nesse tipo de música. Acho que se tivesse lei na música, canções ruins seriam proibidas de tocar. Dentre vários parceiros musicais que teve, existe alguma história que tenha mudado sua vida ou sua música?

O Miles Davis foi especial porque vi aquele cara tocando em 1969, na minha primeira viagem aos Estados Unidos, e cheguei a fazer piada da estatura baixa dele, enquanto ele me chamava de maior músico do mundo. Outra história que guardo é com Tom Jobim. Encontrei ele no elevador após um show em Nova York. Lembro de ele ter dito que não aguentava mais ouvir “Garota de Ipanema”. Então, aconselhei ele a voltar ao Brasil, percorrer vários Estados e se inspirar. Foi o que ele fez quatro meses depois, quando compôs “Águas de Março”, a primeira música com cadência diferente, quebrada da bossa-nova. Era quase um baião que o Tom buscou no Nordeste.

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