Muchas gracias

iG Minas Gerais |

Hélvio
undefined

Oh, Gabo, não dá pra ficar triste com sua partida. Você meu deu tanto, que só o que posso fazer é agradecer pelo encantamento que me proporcionaram cada personagem, cada diálogo, cada história, cada maluquice, inventados por sua cabecinha privilegiada. Te “conheci” na adolescência, por meio da sua obra máxima, “Cem Anos de Solidão”. E, como não cabia em mim de tanto entusiasmo com o que lia, acabei por contaminar minha irmã e o meu pai, que nem esperaram eu acabar de ler pra se aventurar também em sua escrita. Assim, o mesmo livro ia passando de mão em mão e a história avançando mais pra um do que pra outro. O duro era quando João Mascagna fazia a clássica pergunta: – Sil, você já chegou na parte que... E acabava revelando, por excesso de empolgação, mais do que devia (um spoiler, quando ainda nem sabia o que era isso). Mas isso não era nada perto do prazer de compartilhar, entusiasmada, os detalhes da saga dos Buendía com eles. Eram tantos Aurelianos, Josés Arcádios, personagens que morriam e surgiam que, em determinado momento, perdi um deles. Não lembrava qual tinha sido seu fim. Foi Nana, minha irmã, que me salvou, fazendo uma árvore genealógica dos Buendía. Hoje, algumas edições de “Cem Anos de Solidão” já contam com isso, mas Nana fez de próprio punho. Foi pioneira. Poder compartilhar as impressões sobre aquela história fantástica com minha irmã e meu pai, no momento em que cada um de nós te descobri,foi uma experiência maravilhosa, que guardo para o resto da vida. Mais tarde voltaria ao livro, claro, de maneira diferente, mas igualmente enfeitiçada. Fiquei tão maluca com o livro, Gabo, que por algum tempo dizia que se tivesse uma filha se chamaria Amaranta. Josué, o namorado que depois se tornaria marido, concordava: ele também era doido com você. E vieram os outros livros: “Ninguém Escreve ao Coronel”, “Crônica de Uma Morte Anunciada”, “O Outono do Patriarca”, “A Incrível e Triste História de Cândida Eréndira e Sua Avó Desalmada”, “Cheiro de Goiaba”... Era preciso persegui-lo (no bom sentido do termo), correr atrás de tudo o que você já tinha escrito até então e ficar atento para o que viria pela frente. E em 1985, surgiu “O Amor nos Tempos do Cólera”. Vi, depois de sua morte, um vídeo em que você diz ser este o seu livro preferido entre todos que escreveu. Talvez seja o meu também – embora quando escrevo isso, os Buendía vêm todos à minha mente, como a dizer, “como pode uma história de amor ser maior que a trajetória de uma família?”. Mas é que se “O Amor nos Tempos do Cólera” se propusesse a ser simplesmente uma história de amor já teria cumprido sua missão com louvor – um amor que espera 53 anos, sete meses e 11 dias para se concretizar. Mas é mais do que isso. É um tratado sobre a velhice, e isso você deixa bem claro ao escolher começar o livro com o suicídio de Jeremiah Saint-Amour, que opta por dar fim à vida para não ter que enfrentar o envelhecimento. Só muitas páginas depois é que vamos realmente conhecer Fermina Daza e Florentino Ariza, os protagonistas do romance. Conhecer para nunca mais esquecer, para poder revisitá-los sempre. Assim, como todos os outros que você criou. Você se foi e isso é inevitável, mas sua literatura esta aí para o deleite de revisitas, novas visitas e novos encantamentos. Muchas gracias, Gabo, por todo!

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave