Hermeto Pascoal prepara outro disco de inéditas

Hermeto Pascoal participa de bate-papo na capital hoje; aos 77 anos, ele prepara outro disco de inéditas

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Hermeto tem o plano de fazer milhares de cópias de músicas suas e jogá-las pelo céu, de cima de um helicóptero
Hermeto tem o plano de fazer milhares de cópias de músicas suas e jogá-las pelo céu, de cima de um helicóptero

Ele continua moldando o som do inimaginável: uma xícara de café, um porco grunhindo, abelhas fazendo zum-zum, garrafas d’água e recentemente uma máquina de lavar estragada em casa. É que quando a questão é limite, Hermeto Pascoal desdenha sem titubear: “Não sei bem o significado dessa palavra na música, meu caro. E não pretendo saber. O limite existe só para ser transposto”. E então, na sequência, ouço pelo telefone a gargalhada nata de um bom velhinho que nas fotos lembra a imagem do Papai Noel, mas que cai melhor na definição de “o maior músico do mundo”, como disse o trompetista Miles Davis, gênio do jazz no século XX.

Aos 77 anos, o poli-instrumentista Hermeto Pascoal chega a Belo Horizonte para participar do projeto Retrato de Artistas: Molduras do Pensamento, que propõe um bate-papo aberto sobre música brasileira, internacional, erudita, popular... Para ele, tudo é apenas som, sem distinções de rótulos. Apesar de parecer que o mago da música brasileira fez de tudo na carreira – desde inventar um instrumento musical na casca de uma abóbora aos 10 anos de idade até ser convidado a tocar com John Lennon –, o Bruxo das Alagoas continua à caça de sons que ainda não caíram no ouvido de ninguém. “Tem dia que ficou louco, escrevo cinco músicas em meio dia. Mas sigo a mesma fórmula desde quando comecei, aos 7 anos: coloco o sentir na frente do saber”.

É que desde o projeto Calendário do Sorrir (2000), em que Hermeto Pascoal escreveu uma música por dia durante um ano (totalizando 366 canções porque ele incluiu o dia 29 de fevereiro para homenagear quem não faz aniversário todo ano), o ritmo de criação do músico não para de crescer. A diferença é que em vez de usar o velho caderno de capa preta para anotar as composições, ele tem escrito sem pudor em qualquer lugar: paredes de casa, guardanapos de bar, telas de pintura e até pratos de restaurantes. “Eu estou escrevendo tanto que tenho até medo. Uma vez num restaurante eu vi aquele prato todo branco e não resisti: escrevi uma música nele, com um canetão preto que eu carregava no bolso, porque a comida ia demorar para chegar mesmo. Como a foto do prato não ficava boa, eu decidi roubar o prato e levar para casa e não perder minha composição”, revela.

Sem limites, Hermeto também não tem obrigações. Atualmente, ele roda o país apresentando o espetáculo “Hermeto Pascoal e Grupo”, no qual faz uma releitura de toda a carreira, incluindo o antológico álbum “Música Livre de Hermeto Pascoal” (1973), que inclui “Carinhoso”, de Pixinguinha, e “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, reinventadas com a genialidade de um arranjador que funde baião e música experimental como se os dois gêneros tivessem nascido juntos. “Aquele disco virou popular, mas era o cúmulo do experimental. Na época, muita gente chamou de lixo. Hoje talvez seja o luxo do lixo, não é?”, relembra. Mas o músico não se incomoda com críticas, julgamentos ou opiniões que o têm ora como gênio, ora como um compositor de hábitos estranhos e irredutíveis.

Em 2012, ele causou alvoroço no mercado fonográfico ao abrir mão dos direitos autorais de todas as cerca de 615 músicas que compôs na carreira para que elas pudessem ser usadas como domínio público. “A música tem que ser livre. E ter feito essa espécie de doação me traz um desapego, como se pudesse criar mais coisas ainda sem ficar tão apegado ao passado que, inevitavelmente, não volta”, avalia.

MUDANÇA. Com mais de 70 anos de carreira, Hermeto Pascoal vai criar mais. Ele decidiu rebatizar seu grupo musical para homenagear alguns dos principais nomes da música instrumental brasileira, que o acompanham há 40 anos no palco: Itiberê Zwarg (contrabaixo), Márcio Bahia (bateria), Fábio Pascoal (percussão), Vinicius Dorin (saxofones e flautas), André Marques (piano), além de sua mulher, Aline Morena (voz e viola caipira), com quem ele vive há 11 anos em Curitiba.

Sob o título Hermeto Pascoal e a Nave Mãe, o grupo só vai usar o novo nome no próximo disco do músico, que ainda não tem data para sair – mas deve chegar às lojas em 2015. O conceito de “nave mãe” traz a ideia de uma família que o alagoano formou para fazer música. “É como uma joia rara. A qualidade da essência não tem nada a ver com o tamanho das músicas, a complexidade dos arranjos ou essas bobagens. O que vale é o coração, e esses caras que estão comigo há quatro décadas sempre tocam com o coração”.

E foi justamente esse coração que levou Hermeto a deixar o Rio de Janeiro e se mudar para Curitiba há uma década. O encontro sentimental com a cantora Aline Morena – 44 anos mais nova – renovou a música e a alma do músico que sempre teve ouvido absoluto para diferenciar um dó sustenido de um lá bemol precisamente, mas que apenas agora sente essa mudança. “Parece que houve uma libertação na minha vida, algo que senti apenas hoje, por isso estou escrevendo tanto. A Aline é extremamente sensível e aguça meus sentidos. Não sei explicar. Você tem que sentir isso, não é possível apenas ver”.

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