A abstenção vai bater recorde

iG Minas Gerais |

A temporada da hipersensibilidade eleitoral já está aberta. Nos partidos e nas pautas da imprensa, assuntos que em condições normais de temperatura e pressão não teriam a menor janela, tornam-se destaques nacionais. Curioso um amigo de copo perguntar para o outro e concluir antes da resposta: “E a Petrobras, hein? Quanta roubalheira!” Também entra na lista da exploração hipersensível a pesquisa de amostra por domicílio cuja série o IBGE suspendeu para se adequar à nova metodologia. A decisão tem cheiro suspeito já que a Pnad diz muito sobre as condições das famílias. E o reajuste na conta da Cemig? A empresa – entenda-se o governo tucano de Minas – deu um tiro no pé ao tentar ludibriar o consumidor/eleitor com publicidade. A Aneel – entenda-se o governo federal petista – respondeu na ferradura e transferiu a responsabilidade. A peleja foi parar na Justiça. Mas, cá entre nós, o cidadão está realmente se importando, como a imprensa e os partidos, com os desdobramentos eleitorais desses tipos de desmando? Parece que não. A eleição presidencial deste ano terá as maiores taxas de abstenção e votos de protesto desde 1989. Há indícios de sobre para essa expectativa. Estamos a cinco meses de votar, e o que justifica um índice entre 20% e 24% de intenções nulas e em branco? O que leva a responder “vou anular” ou “vou votar em branco” quando se está diante da lista de nomes? Paralelamente, o grupo dos indecisos está significativamente menor, mais ou menos uns dez pontos. Nas eleições presidenciais passadas, as rodadas realizadas entre quatro e seis meses antes do 1º turno apresentaram índices de indecisos invariavelmente superiores aos de nulos e brancos. Em maio de 2010, por exemplo, 5% pretendiam anular ou votar em branco, valor que caiu para 4% em julho e chegou a 3% na véspera. Nessas mesmas rodadas, os indecisos eram, respectivamente, 9%, 10% e 6%. Já na disputa de 2006, em que Lula foi reeleito, a taxa de brancos e nulos aferida pelos principais institutos arrefeceu-se de 10% para 4% entre abril e outubro. Perceba a distância de magnitude entre esses números e os atuais, na casa dos 20%. Quem diz hoje que vai anular pode escolher algum nome? Claro que pode. Mas quem está no grupo dos cerca de 15% de indecisos também pode optar por não votar em ninguém, assim como os eleitores de Dilma, Aécio e Campos podem mudar de ideia e entender que não preferem qualquer das opções. Ainda que se reduza, os insatisfeitos serão muitos, deverão ser recorde. Se num belo domingão de outubro, eu não me simpatizar por nenhum candidato, por que sairei do meu conforto para expressar que eu não tenho em quem votar? A cama, a praia, o clube, o sítio, o restaurante ou o cinema serão preferíveis a um voto nulo. Depois, basta se justificar em um cartório. O teto histórico de 21,5% de abstenção geral está para ser rompido, afinal, solidifica-se o sentimento de que “nada do que está aí me representa”.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave