Reinvenção do Grande Teatro

“Sarabanda” promove inversões nas relações de palco e plateia dentro do palco mais tradicional de Belo Horizonte

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Inversão. Palco do Grande Teatro abrigará o público enquanto os atores da peça circulam por vários espaços, inclusive a plateia
Leo Lara
Inversão. Palco do Grande Teatro abrigará o público enquanto os atores da peça circulam por vários espaços, inclusive a plateia

O Grande Teatro do Palácio das Artes ostenta uma aura que não existe apenas pela sua grandiosidade física, mas também por uma espécie de respeito apregoado por artistas que, ao longo tempo, rendem ao espaço sua fama de “palco nobre das artes da cidade”.

Premidos por esse respeito, mas motivados a aproximar o público de seu trabalho, os diretores Grace Passô e José Ricardo Junior decidiram inverter a mão no processo de concepção de “Sarabanda”. Isso quer dizer que o público que for ao Grande Teatro, hoje e amanhã, ficará no palco enquanto os quatro atores da peça transitarão por vários lugares inusitados. Inclusive, a plateia

“O nosso cenário é o próprio teatro e sua arquitetura: essa grande maquinaria, essa dimensão operística que o teatro tem. Até tínhamos uma concepção de cenário, mas visitando o espaço, tomamos essa decisão. Conversando com o Ricardo (Alves Júnior), falávamos o quão interessante é, para nós, que fazemos espetáculos mais íntimos, vir para esse espaço e estabelecer esse tipo de diálogo”, destaca Grace.

Para a diretora, a experiência de trabalhar no Palácio das Artes traz lembranças. “O Grande Teatro é nossa menina dos olhos. Foi o primeiro grande teatro em que entrei na vida. Depois participei de ‘Sertão Sertões’ com o Carlão (Carlos Rocha) e a (Carmem) Paternostro. Agora, posso voltar”, comemora ela.

Outro destaque da montagem é o elenco formado por Gustavo Werneck, Marina Viana, Rita Clemente e Rômulo Avelar. “O interessante é que eles (os atores), além de sua capacidade, vêm de vários ‘lugares’ do teatro que é feito em Belo Horizonte. Eles representam a diversidade do teatro da cidade”, destaca a diretora.

Rita Clemente, que vive a advogada Marianne na trama, destaca a oportunidade de trabalhar em uma obra de Ingmar Bergman. “Minha geração teve como referencial obras como as de Bergman. Minha formação e experiência colocam o teatro em primeiro plano, mas a obra de Bergman tem, sobretudo para atores da minha geração, um ponto de vista agudo sobre o trabalho do ator, mesmo que seja através do cinema, pois transcendia os aspectos estilísticos da época ou aos modismos que cada tempo impõe sobre seus artistas. Eu acho valorosa essa qualidade: uma certa atemporalidade conceitual”, destaca ela.

Viver Marianne, personagem tão bem interpretada por Liv Ullmann (dos filmes “Cenas de um Casamento” e “Saraband”), não parece intimidar Rita. “Penso que cada ator tem procurado se ‘achar’ nesta experiência. Há contradições muito positivas e eu optei por aceitar as diferenças entre o filme e nossa peça, entre os personagens do filme que são um pouco mais velhos e a nossa realidade. Mas tenho o filme como pressuposto o tempo todo, pois a abordagem do Bergman, seu foco nas delicadezas, realmente me motiva. Resolvi caminhar despretensiosamente e servir a essas delicadezas, tentar instaurá-las, esse é meu maior desejo”, revela a atriz.

“Sarabanda” também marcará o reencontro de Rita com Grace Passô. No entanto, agora, em posições invertidas. Rita dirigiu Grace em “Amores Surdos”, do Espanca!, em 2005. “Grace é uma artista das boas e traduz isso em seu trabalho de atriz grandiosamente. Inverter os papéis é maravilhoso, ratifica a vocação que o teatro tem para proporcionar a seus artistas funções amplas”, destaca a atriz.

A montagem também trouxe a Rita a possibilidade de reencontrar antigos conhecidos e conhecer novos artistas. “Encontrei também um brilhante ex-aluno – Rômulo Braga – um ator que se arrisca lindamente. Além de Gustavo Werneck e Marina Viana, tão parceiros, tão talentosos. Além de toda essa alegria que é estar com profissionais da mais alta qualidade, tem o fato de serem gente ética e generosa. Trata-se de uma linda experiência”, diz.

Programação

Os curadores do Cine Humberto Mauro realizaram a maior Mostra já vista do cineasta sueco na América Latina. “Instante e Eternidade” exibe 46 filmes, programas de TV de Ingmar Bergman e conta com a estreia da peça “Sarabanda”. A programação gratuita segue até 12 de Maio.

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