Bergman: o homem de teatro

Último filme do sueco é levado ao palco por meio de “Sarabanda”, com direção de Grace Passô e Ricardo Alves Jr.

iG Minas Gerais |

Diálogo. Atores interpretam “Sarabanda” como uma peça de teatro, mas têm suas imagens projetadas em tempo real
Ricardo Portilho/Divulgação
Diálogo. Atores interpretam “Sarabanda” como uma peça de teatro, mas têm suas imagens projetadas em tempo real

Que Ingmar Bergman é um dos maiores diretores da história do cinema mundial, isso é sabido e reconhecido, mas uma faceta pouco conhecida do diretor poderá ser vista hoje, quando estreia o espetáculo “Sarabanda”, no Grande Teatro do Palácio das Artes. O público poderá ter contato com Bergman, o homem de teatro.

“A obra dele é muito atravessada pela estética teatral”, ressalta Grace Passô, que dirige o espetáculo junto com o cineasta Ricardo Alves Junior. A dupla contou com a assistência de Luisa Bahia. Bergman começou sua carreira no teatro e não o deixou de lado ao realizar seus filmes. Estima-se que ele teve participação em aproximadamente 200 peças.

A iniciativa de revelar ao público a relação de Bergman com o teatro partiu dos curadores da mostra cinematográfica “Ingmar Bergman - Instante e Eternidade”, que então convidaram a dupla para dirigir uma adaptação de um dos filmes do diretor sueco para o teatro. “Nós escolhemos o ‘Saraband’ porque tem algo muito teatral e a Grace se apaixonou por ele. É um filme que contém tudo que ele trabalhou na sua carreira. Não só pela história, mas por todos os elementos da obra do Bergman que estão ali presentes no filme: a relação e o incômodo com o outro, o encontro com a morte...”, revela Alves.

Último longa-metragem do cineasta, “Saraband” (2003) retoma a história de Johan e Marianne, do filme “Cenas de um Casamento” (1973). A advogada Marianne, após se divorciar, decide, impulsivamente, visitar o ex-marido, Johan, que alcançou a independência financeira em razão de ter recebido uma grande herança, e vive, agora, isolado em uma casa no interior, após deixar o trabalho na Universidade. Nesse encontro, Marianne testemunha o relacionamento atormentado entre Johan, seu filho Henrik e a neta de 19 anos, Karin. Incapaz de lidar com a morte da esposa, que falecera há dois anos, Henrik expressa sua dor através de uma nada saudável obsessão com Karin, a neta adolescente. Ignorando os protestos de Henrik, Johan oferece mandar Karin para um prestigiado conservatório de música, forçando-a a escolher entre ficar com seu atormentado pai ou ter um futuro promissor como violoncelista.

Cinema no palco. Ao analisar o que há de teatral na filmografia de Bergman, Grace arrisca: “Há um tempo da ação que é teatral, que se desloca e sai desse naturalismo que o cinema, às vezes, proporciona. Ele provoca no espectador um estranhamento com esse tempo prolongado. São planos que duram muitos segundos”. Alves Júnior, no entanto, aposta que o teatro e o cinema são artes irmãs. “São muito próximas e o trabalho de Bergman é a comprovação disso. O teatro e o cinema são o ator e o espaço”, acredita ele.

Não por acaso, alguns elementos do cinema serviram de inspiração para o trabalho. “Queríamos o teatro contaminado pelo cinema. Para isso, utilizamos planos mais fundos, planos gerais e o som de uma maneira muito próxima do cinema. Também criamos um jogo em que o ator está em uma cena teatral, mas também está sendo filmado”, revela o diretor.

Ao levar para o palco uma trama passada na Suécia – país nórdico muito menor que o Brasil e onde faz muito frio –, os diretores estavam cientes do risco da distância cultural entre Brasil e o país do Norte europeu. “Sinceramente, a princípio, quando pensava no espetáculo, sempre imaginei as relações muito frias entre os personagens. Mas nós temos algo latino muito forte que faz a gente responder às mesmas questões de outro maneira. O jeito que lidamos com o outro é um ponto de diferença entre Brasil e Suécia. Todas as questões estavam ali, mas é interessante porque os atores, ao longo do processo, foram se dando conta e trazendo isso para a defesa de seus personagens”, diz Alves Júnior. Agenda

O quê. “Sarabanda”

Quando. Hoje às 19h; amanhã, às 19h e 21h30

Onde. Grande Teatro do Palácio das Artes (avenida Afonso Pena, 1.537, centro)

Quanto. R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada)

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave