Inflação e juros ameaçam poupança

Indicadores em alta deixam aplicação menos atrativa; captação líquida caiu 49% em um ano

iG Minas Gerais |

Economias. Especialista diz que brasileiro considera a poupança uma “proteção contra a pobreza”
LEONARDO LARA/OTEMPO
Economias. Especialista diz que brasileiro considera a poupança uma “proteção contra a pobreza”

São Paulo. Em 2013, a captação da caderneta de poupança foi recorde: R$ 71 bilhões. Ganhou de muitos fundos de renda fixa, mesmo com o ciclo de alta dos juros básicos (taxa Selic). Neste começo de 2014, no entanto, o cenário é outro: a volta da Selic aos dois dígitos e a perspectiva de inflação próxima ao teto da meta, de 6,5% ao ano, parecem minar parte da atratividade da aplicação mais popular do país.

De acordo com o Banco Central, de janeiro a março, a diferença entre aplicações e resgates das poupanças (a chamada captação líquida) foi 49% inferior à registrada no mesmo período de 2013. Se comparada aos últimos três meses do ano passado, o tombo é ainda maior: 76%. No atual panorama macroeconômico, o retorno da poupança tende a empatar ou até ficar abaixo da inflação. “A poupança renderá cerca de 6,5% ao ano e a inflação já está girando em torno disso”, alerta o diretor da Easyinvest Título Corretora, Amerson Magalhães. Caso o cenário se mantenha, haverá perdas do poder de compra dessas aplicações.

Quem investiu qualquer quantia na poupança em 1º janeiro, por exemplo, já está perdendo. “No acumulado de 2014, a caderneta rendeu 1,73% ante uma inflação de 2,17%”, compara o pesquisador do Instituto Assaf, Fabiano Guasti Lima. A regra da poupança mudou em 2012. Hoje, quando a taxa Selic está em 8,5% ao ano ou abaixo desse nível, a caderneta rende 70% do juro básico mais a variação da Taxa Referencial (TR). Acima disso, caso do momento atual, a poupança rende 0,5% ao mês ou 6,38% ao ano, fora a TR. Em 12 meses, a Selic subiu 3,5 pontos, para 11% ao ano, o que ajuda a aumentar um pouco o rendimento da TR.

Ainda não há consenso no mercado sobre a continuidade da alta do juro básico, mas, de todo modo, novas elevações não devem ter impacto significativo na TR a ponto de melhorar a situação da poupança. A estimativa é que fundos DI com taxa de administração de até 1% já superem os rendimentos da caderneta. Pelos dados da Associação Brasileira de Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), a taxa média dos fundos referenciados DI em janeiro era de 0,73% (para qualquer cliente). Só para varejo a média era 1,17%.

As aplicações atreladas à inflação também vivem uma boa fase e ajudam a tirar o brilho da poupança.

Pequenas economias. Apesar do cenário mais desfavorável, a poupança não deixou de ser indicada para certos casos. “Se uma pessoa tem um compromisso próximo, como uma viagem ou o pagamento de parcelas de um carro, a poupança ainda é uma boa escolha. O dinheiro rende, mas rende pouco”, diz Lima. Mais do que um investimento, a poupança é uma “proteção contra a pobreza” na compreensão do brasileiro, diz o coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FGV/SP, William Eid Júnior. Para o professor de finanças do Insper Ricardo Rocha, a poupança é uma porta de entrada no mercado financeiro.

Balanço

Até R$ 100. Em 2013, 55,5% das aplicações da poupança eram de até R$ 100, segundo balanço do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Apenas 5% das aplicações são superiores a R$ 20 mil.

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