Nova especialidade médica

iG Minas Gerais |

Hélvio
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Para os que nasceram a partir da época em que virou um utensílio cotidiano e a tiracolo o telefone celular ou os que tomaram consciência da vida depois que ele surgiu, pode parece algo normal, natural como coçar a cabeça, cruzar as pernas, mexer nos óculos para quem os usa. Para nós que viemos antes e nem somos tão pré-históricos assim, é no mínimo inquietante observar essa fixação contemporânea pelo uso permanente do que era antes apenas telefone móvel para ser agora um computador portátil. Os corpos curvados dessa imensa maioria de pessoas, para as mãos que seguram o aparelho e para os dedos que movimentam o teclado, parecem já apontar para, num futuro breve, uma nova configuração corporal. E por conseguinte há de surgir uma especialidade médica para tratar os efeitos negativos dessa postura. Sim, porque os métodos atuais de tratamento de problemas de coluna não previam essa deformidade física do século XXI. Fica a dica: se você que quer atuar na área de saúde e está de olho em uma especialidade promissora, invista nesse campo. As experiências em laboratório deverão ser feitas em macacos, já naturalmente curvados. E se somos descendentes deles, estamos retornando às origens, fazendo o caminho de volta, assim como na velhice retrocedemos. Sobre o nome da nova enfermidade, não me veio ainda nenhuma ideia, e peço sugestões de vocês, leitores. Eu me lembro que, poucos anos após a disseminação dos computadores para o mundo do trabalho, era comum ouvir que fulano ficara doente de LER (Lesão por Esforço Repetitivo). Muita gente chegou a se aposentar por esse problema originado basicamente pelo suposto excesso na atividade de digitar no teclado do computador. Não sei por que razão pouco se fala de casos assim hoje. Por esses dias assisti a um filme de que nem vale a pena citar o nome, mas o que vem ao caso aqui é que nele ocorrem várias vezes cenas de uma mesma família jantando junto em casa ou frequentando a igreja. Como integrante dessa família há uma adolescente que aparece o tempo inteiro dedicando sua atenção exclusivamente ao telefone celular, sem pronunciar uma palavra sequer. Em algumas cenas ela já aparentava ter o pescoço levemente deformado para um lado. Eu já estava convicto de que esse detalhe do filme não mudaria, até que, mais próximo do fim, em uma determinada questão familiar, ela levantou a cabeça e falou duas ou três frases. Só então se viu o rosto da menina, que imediatamente voltou a abaixar a cabeça para o aparelho. Deixando o necessário senso de humor à parte, essa questão toda não é bobagem e já deve estar sendo alvo de estudos dos pesquisadores. Recentemente uma pessoa idosa muito próxima de mim, e por isso a confiança em me abordar, perguntou intrigada por que tantas pessoas ao redor e de gerações mais novas não mais conversam, ficam o tempo todo de cabeça baixa, mexendo no telefone. Quando são interpeladas, respondem apressadamente e não rendem assunto. Para essa pessoa, a impressão é que elas têm algo a esconder. Expliquei a ela que o celular hoje não é mais só um telefone, é na verdade um minicomputador, e quem o utiliza está permanentemente “conversando” com outras pessoas, em contato com conhecidos e desconhecidos, comunicando -se ininterruptamente. Isso acaba criando um vício e curiosidade constante pelas novas mensagens que virão. Percebi que a pessoa entendeu, mas não diminuiu seu sentimento de frustração, por não ver caminho para uma retomada da boa conversa olho no olho. O que temo é que essa ameaça de nova deformidade física traga outra ou outras deformidades de caráter mais sério. Viva Tiradentes!

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