Família de Dener vive da saudade e decepção com calote

Jogador de apenas 23 anos faleceu em 2003, quando estava emprestado ao cruzmaltino, que não pagou seguro de vida a que o atleta tinha direito

iG Minas Gerais | AGÊNCIA ESTADO |

Depois de duas décadas passadas após a morte de Dener, ocorrida em 1994, a família do jogador ainda não recebeu todo o dinheiro do seguro de vida devido pelo Vasco, clube que o atacante defendia na época em que morreu. “O grande sonho da minha vida é receber esse dinheiro. É uma luta de 20 anos. Eu não estou passando fome, não quero sensacionalismo, só quero os meus direitos. Eu ganhei na Justiça. Espero que pelo menos os meus netos possam recebê-lo”, afirma a viúva do atleta, Luciana Gabino.

Desde agosto de 2012, não cai um centavo na conta de Luciana. No ano passado, o advogado da família, Renato Menezes, protocolou uma ação de execução para recolher os saldos das contas bancárias do Vasco para o pagamento da dívida. Encontrou zero de saldo. Agora, entrou com um pedido de penhora das rendas da equipe na Série B do Campeonato Brasileiro. Isso inclui bilheteria, cotas de patrocínio e de televisão. O processo corre na 20ª Vara Trabalhista de São Paulo.

Como o clube perdeu os seis primeiros mandos de campo na Série B como punição pela briga dos torcedores em Joinville, na última rodada do Campeonato Brasileiro de 2013, o pedido de penhora será reapresentado depois da Copa. “Parece que estamos pedindo esmola”, protesta o advogado.

Dirigentes do Vasco não quiseram se pronunciar oficialmente, mas reconheceram a dívida. A justificativa para a interrupção do pagamento é a crise financeira vivida pelo clube nos últimos anos. Eles dizem que a arrecadação é dirigida para manter o clube sobrevivendo e que não há como fazer um acordo agora. Também afirmam que não existem recursos suficientes para pagar a dívida.

ACIDENTE - Mas é preciso contar a história do começo. No dia 19 de abril de 1994, a carreira em ascensão de Dener foi interrompida tragicamente por um acidente na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio. O seu Mitsubishi Eclipse branco, dirigido por um amigo, atingiu com violência uma árvore. Dener se sentava no banco do passageiro e, como o banco estava totalmente inclinado, acabou sufocado pelo próprio cinto de segurança. Tinha 23 anos.

O passe de Dener (naquela época ainda existia o passe) pertencia à Portuguesa, mas ele estava emprestado ao Vasco. Aí começa o drama que alcança a segunda geração da família. O clube carioca ignorou o seguro de vida que constava do contrato de trabalho do atleta. Em agosto de 2003, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) condenou o Vasco por essa falha. Para a Lusa, deveria ser feito um pagamento de R$ 4,6 milhões. Para a viúva, R$ 5 milhões.

O clube, no entanto, não reconhecia Luciana Gabino como esposa, pois eles não eram casados de papel passado. Luciana enfrentou uma negociação difícil com Eurico Miranda, um dos dirigentes mais casca-grossa do futebol brasileiro. “O Eurico falava que não devia nada”, conta Luciana.

A queda de braço durou 13 anos. Sim, 13 anos. No momento mais difícil, a viúva chegou a ser ameaçada de despejo por atraso no pagamento do condomínio em que vive, na zona norte. Em 2007, Luciana cedeu. Ninguém confirma os valores, mas o Estado noticiou à época que o valor inicial do acordo, de R$ 24 milhões caiu para R$ 16 milhões e, depois, despencou para R$ 3,2 milhões, a serem pagos em 36 parcelas.

“O Eurico recebe muitas críticas, mas ele sempre pagou tudo em dia depois que o acordo foi feito. Foram 12 parcelas. O problema aconteceu quando mudou a presidência do Vasco e assumiu o Roberto Dinamite (em junho de 2008). Aí, foram três anos para pagarem mais 11 parcelas. Desde 2012, não pagam nada”, reclama o advogado, dizendo que a dívida foi alongada - com parcelas menores e prazos maiores -, mas, mesmo assim, nada. Com a Portuguesa, não existe qualquer pendência.

Hoje, a renda principal da família é a pensão do INSS pela morte de Dener. Também ajuda a porcentagem pelas vendas de uma camisa especial de 2012, um tributo ao gol mais bonito da história do Canindé, marcado em 1991, contra a Inter de Limeira. O caçula Dener Mateus trabalha em um escritório de contabilidade. Denis e Felipe estão procurando emprego depois que desistiram da carreira no futebol.

SAUDADE - A leitura do texto até aqui faz parecer que a indignação é maior do que a saudade. Não é. Dener foi o primeiro namorado de Luciana. Depois da morte, ela teve outros namorados, chegou a ter outra filha - Barbara -, mas não se casou de novo. A música do casal é "Let’s get it on", de Marvin Gaye. Depois de uma união de oito anos e três meses, e dos 20 anos da morte do companheiro, Dener ainda é o titular no coração de Luciana.

Para os três filhos, as lembranças do pai ficam restritas aos relatos de amigos e a vídeos da internet. “Procuro forçar a memória para tentar me lembrar de alguma coisa, mas não vem nenhum flash. Hoje, conseguimos administrar melhor a saudade, mas ainda dói quando vemos os vídeos”, diz Denis.

A ausência do pai foi um longo caminho a ser superado. Quando os meninos eram menores, começavam a chorar quando o pai aparecia na tevê. Esse sentimento, no entanto, não é patrimônio familiar. O Brasil compartilha essa saudade. O saudoso cronista Armando Nogueira escreveu que o meia só morreu porque estava dormindo. Se estivesse acordado, teria driblado a morte.

PARENTESCO MINOU FILHOS - Os três filhos de Dener tentaram seguir os passos, ou melhor, os dribles do pai, mas a carreira deles no futebol não vingou. Ironicamente, o principal problema foram as comparações com o patriarca, um dos maiores ídolos do Canindé. Todos chegaram a treinar nas categorias de base da Portuguesa, o mesmo clube em que o pai se projetou, mas acabaram dispensados e não chegaram ao time profissional. Dizem que não receberam explicações para a saída.

“Queria fazer a minha história na Portuguesa, mas as cobranças e as comparações atrapalharam um pouco. Todo mundo só falava do meu pai”, confessa o filho do meio, Felipe Augusto Gabino de Sousa.

Denis Henrique Gabino de Sousa, o mais velho e o primeiro a desistir do sonho de ser jogador, conta que o parentesco famoso abriu muitas portas, mas ele encontrou outras tantas trancadas. “Tinha um relacionamento complicado com os outros jogadores. Dentro de campo, eles não passavam a bola para mim. No ônibus, poucos falavam com a gente. Eles achavam que nós tínhamos privilégios porque éramos filhos do Dener. Eu entendo o lado deles. Todo mundo estava buscando seu lugar e a gente levava vantagem”, comenta o herdeiro de 24 anos.

Por privilégios, entenda-se uma atenção especial de alguns diretores do clube, que sempre perguntavam se eles estavam bem e se precisavam de algo. Os três pensaram em procurar espaço no Vasco, clube que ainda não concluiu o pagamento da indenização pela morte do pai, mas desistiram da ideia.

A decisão definitiva de desistir do futebol veio no início deste ano e, agora, eles buscam outro rumo na vida. Denis planeja se formar em Turismo, mas antes quer morar uns tempos na Austrália. Felipe quer fazer Educação Física no segundo semestre. Mas eles não querem se afastar do futebol. “É o que eu gosto de verdade. Está no sangue”, diz Denis.

O caçula, Dener Mateus, trabalha em um escritório de contabilidade na zona norte e faz um curso técnico na mesma área. “Respeito a decisão deles. Tentaram o futebol, mas agora querem mudar de vida”, diz Luciana Gabino.

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