Canção de ninar

iG Minas Gerais |

Eu estava atrasada. Dia de outono, calor do deserto. Andava me aventurando entre os quadradinhos (como apelidei o que sempre chamei de rua, mas, morando em Brasília, virou outra coisa). Cheguei ao ponto de ônibus sem errar. É como vencer uma partida de batalha naval. Por sorte, os coletivos que pego para a Asa Sul pela W3 são constantes. Mal dá para sentar no banco e folhear um livro qualquer. Quando digo livro, não é o que está na minha bolsa – sobre redes sociais, relacionado ao novo trabalho. Nos pontos do plano piloto há bibliotecas com uma série de doações. A iniciativa muito bacana é de um açougue, o T-Bone. Olhei no relógio e já enviei aquele WhatsApp para a turma do trabalho para o caso de o trânsito não colaborar. Parece que aqui todo mundo dirige ou se vê obrigado a aprender. O contrário de São Paulo, onde morei, e as pessoas estão vendendo os carros e aderindo ao transporte público. Posso escolher o assento. Escolho um individual, longe do sol escaldante. Quando começo a listar mentalmente as tarefas do dia, mas sou interrompida por uma voz. Ela canta, afinada e com doçura. Olho para trás e vejo uma mulher linda, com tranças afro. Ela carrega um bebê no colo e a filha está encostada em seu ombro cantarolando junto. É um idioma que não consigo identificar muito bem. O bebê dorme com uma tranquilidade de dar inveja. Eu me sento ao lado deles. A menininha não corresponde aos meus sorrisos. Prefere cantar com a mãe. Meus olhos se enchem de água. Sinto saudade da minha mãe, de colo, de cantar junto. Eu adorava cantar Gilberto Gil e Jorge Mautner. Mamãe tem até uma fita K7 com esse registro. A mulher percebe que estou os observando, meio sorridente, meio comovida, meio desajeitada com a indiferença da garotinha. Chega o ponto, enfim. “Sua família é linda!”, digo. Ela se limita a sorrir. Eu atravesso aquilo que na minha cidade se chama avenida. Eu passo o dia me lembrando daquela música. Ludmila Azevedo é jornalista e pós-graduada em cinema. Ela divide este espaço com Jack Bianchi, Lobo Pasolini, Mariana Rodrigues, Tereza Cristina Horn e Silvana Holzmeister

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