Em defesa da consolidação da arte brasileira

iG Minas Gerais |

À medida que os artistas brasileiros alcançam maior visibilidade internacional, diversas outras realidades locais se expressam por meio desse movimento. Uma delas é a maneira como alguns nomes usufruem da projeção no exterior, muitas vezes porque aqui ainda é frágil a atuação de instituições que poderiam cumprir o papel de promover a circulação, a divulgação e a pesquisa sobre a produção artística contemporânea.

Rodrigo Moura, diretor de arte do Instituto Inhotim, reconhece nisso o problema de nos tornamos dependentes de uma dinâmica complexa. “Algumas coisas melhoraram no Brasil, mas ainda é importante darmos outros passos. Não podemos funcionar num sistema de legitimação que vem do exterior. É muito importante que os artistas façam sucesso fora do Brasil, mas é também relevante que ele tenha condições de circular aqui dentro”, observa Rodrigo Moura.

Ele também questiona que apenas a projeção internacional não necessariamente significa que haverá mudanças na maneira como o sistema funciona internamente no país, repercutindo em contribuições positivas. “Isso sozinho não fortalece nem encoraja o desenvolvimento do campo artístico. Nosso desafio é criar uma estrutura permanente que de fato seja produtora desse tipo de reconhecimento”, frisa Moura.

Para a professora, crítica de arte e curadora Luisa Duarte, outra questão que envolve a expansão da presença dos artistas nacionais no exterior é a possibilidade de ela ser impulsionada apenas por uma demanda do mercado.

“A melhor forma de reverberação seria ver esse reconhecimento internacional como algo que legitima ainda mais a arte brasileira contemporânea. O que deveria fazer com que as instâncias públicas e privadas no Brasil cuidem de nossas instituições, sejam mais responsáveis e zelosas por esse patrimônio de valor incomensurável”, aponta.

Grande parte dessa repercussão, lembra Fernanda Feitosa, diretora da Feira Internacional de Arte de São Paulo (SP-Arte), se deve à atuação de galeristas e da expansão da feiras. No entanto, ela reconhece que apenas o envolvimento desses não mantém o cenário nacional. “É preciso aproveitar o momento para fortalecê-lo e não debilitá-lo. É importante direcionar mais investimentos aos museus, às bienais. É incrível como a Bienal de São Paulo acontece há 30 anos e sempre está carente de recursos. Seria fundamental um programa que garantisse a sua realização”, diz Fernanda Feitosa.

Em relação a dificuldade de cuidar do acervo, Duarte ainda cita dois casos emblemáticos. “A maior coleção de arte construtiva do Brasil, de Adolpho Leirner, foi oferecida mais de uma vez para instituições brasileiras. Nenhuma delas se interessou ou encontrou condições para viabilizar a compra. Resultado, a coleção encontra-se hoje em uma instituição norte-americana. O mesmo ocorreu com parte da obra de Helio Oiticica. Esses fatos relatam a nossa própria incapacidade de preservar e exibir tesouros da nossa cultura. Estes seriam passos fundamentais para a formação de um país, de uma cultura, e da gente que aqui vive”, conclui. (CAS)

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