Ensinamentos fora do set

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

“O grande desafio dos diretores é superar a dificuldade que eles têm em ensinar os atores a expressar o que querem”
lugar de cinema / divulgação
“O grande desafio dos diretores é superar a dificuldade que eles têm em ensinar os atores a expressar o que querem”

Em Belo Horizonte para ministrar dois cursos no Lugar de Cinema, Simon Phillips tem vasta experiência na área, mas seu nome não chega aos créditos dos filmes. Ele é o chamado “coach” e já orientou profissionais como Charles McDougall (diretor da série “House of Cards”) e Simon Beaufoy (roteirista de “Quem Quer Ser um Milionário” e “127 Horas”). Aqui, ele fala sobre sua profissão. 

Qual é sua formação acadêmica e como você entrou no ramo de “coaching” de diretores de cinema?

Na década de 1970, eu morava em um pequena cidade na Inglaterra. Nesse período, minha casa foi invadida três vezes por alguns jovens, no meio da noite. Aí eu pensei ir até o centro artístico da cidade para propor um workshop sobre direção de filmes e, assim, tentar descobrir quem eram eles. Os responsáveis pelo centro aceitaram a proposta, mas nenhum dos jovens invasores participou. Acabei percebendo que os participantes do curso não conheciam ferramentas para levar emoção por meio das câmeras e nem os conhecimentos tradicionais de direção. Eles simplesmente não conseguiram dirigir. Daí tive que encontrar maneiras de ensiná-los como expressar emoções sem mesmo uma palavra, por exemplo. Foi assim que eu comecei. Depois disso, eu fui até National Film School, na Inglaterra, para encontrar excelentes profissionais, como Mike Leigh. Mas muito deles não sabiam como ensinar a dirigir. Eles usam do conhecimento, mas não sabiam ensinar. Assim eu percebi que poderia ensinar. Então tive a chance de viajar internacionalmente e ver diretores filmando na Suécia, Cuba e em outros lugares do mundo. O que vi é que os diretores têm milhões de coisas para pensar e, assim, muitos procedimentos necessários para fazer um filme ou uma série são esquecidos. Eu trabalho no sentido de melhorar a percepção deles sobre o próprio trabalho. Academicamente, estudei para produtor e diretor de cinema, lecionei em algumas escolas, mas não faço isso mais.

Quais são os maiores desafios que seus estudantes enfrentam enquanto dirigem?

O grande desafio dos diretores é superar a dificuldade que eles têm em ensinar os atores a expressar o que querem. Algumas pessoas inclusive dizem que alguns diretores deveriam conhecer mais as técnicas de atuação. Mas existe um conjunto de ferramentas para que eles possam desenvolver essas habilidades. Por exemplo, os ensaios são um dos maiores problemas para os diretores. No meu treinamento, ensino técnicas que permitem ao diretor, durante o ensaio, verificar o que realmente precisa ser ensaiado. Além disso, recorrentemente diretores tanto de cinema quanto de TV me perguntam como eles podem fazer um ator chorar ou conseguir encenar algo realmente dramático.

E como você os ajuda?

Nesse caso, o escopo da minha aula é planejar os ensaios. Os diretores e autores, por meio de estudo detalhado do roteiro, podem fazer esse trabalho. O que aconteceu na indústria do cinema é que os produtores têm diminuído o tempo de ensaio, enquanto os diretores gostariam que atores passassem mais tempo juntos e se conhecessem melhor. Mas se você usar bem as ferramentas de direção, você pode otimizar os ensaios e saber exatamente o que quer extrair dos atores. Nesse caso, é possível planejá-los, mesmo que você tenha apenas 10 minutos antes da filmagem.

Você trabalha com pessoas que se formaram em escolas de cinema. Mesmo assim, elas precisam de treinamento posterior. Quais são as maiores falhas da escolas de cinema hoje em dia?

As pessoas com quem eu trabalho sabem os problemas que estão enfrentando. Eles sabem que não necessariamente lhes foi ensinado o que devem saber para o seu trabalho. Bem, já participei de duas conferências sobre o ensino de cinema. E a maioria dos profissionais disse que não é possível ensinar a arte de dirigir a outras pessoas, que os próprios estudantes devem encontrar sua voz e sua visão.

Você acha mais difícil instruir diretores ou roteiristas?

Hoje em dia é cada vez mais comum que roteiristas também sejam diretores. As coisas mudaram, principalmente, nos tempos mais recentes devido a um nova fórmula de fazer televisão. Quando eu comecei a trabalhar como instrutor de diretores, meu trabalho era muito mais voltado para o cinema. Mas agora existe um movimento criativo na televisão, que foi quase totalmente tomado por roteiristas. Quase ninguém sabe quem dirige essas produções na TV, mas sabem quem as escreve, como “Breaking Bad”. Ao mesmo tempo, há um novo sentimento, especialmente na Europa, nos diretores que clamam por sua própria voz, como se fosse uma retomada do “auteur” (teoria em que o filme reflete a visão de seu diretor). Então, quando você me pergunta sobre o trabalho com diretores e roteiristas, há um novo contexto para os dois. Mas, na maioria da vezes, eu não ensino roteiristas. Em grande parte porque há tantas fórmulas de roteiros em Hollywood, milhares de modelos prontos das décadas de 1970, 80 e 90. Mesmo assim, apesar de passar grande parte do meu tempo ajudando diretores nos ensaios, também os ensino a como trabalhar com um roteirista, como ler um script e como ajudá-lo a ter um visão clara da história a ser contada.

Você acha que existe preconceito contra aqueles diretores que precisam de sua ajuda, como se eles não fossem bons o suficiente?

A verdade é que somente bons profissionais estão abertos ao “couching”. Alguns diretores temem que outras pessoas pensem que eles possam ser fracos por serem aconselhados por outra pessoa. Mas, na verdade, são os produtores que mais querem ajuda para os diretores. Não porque eles sejam ruins, mas porque, assim, permite que eles entendam a complexidade do que é dirigir, em vez de ser um mistério em alguns pontos. Os produtores fazem muitos planos e, logo depois, o diretor vai lá e muda e começa a filmar coisas diferentes. Daí o produtor chega e pergunta: “O que você esta fazendo?” (risos). O preconceito não é por parte dos produtores, eles adoram porque permite que haja mais clareza no trabalho dos diretores e ficam confiantes no caminho correto do projeto. Porém, esse medo existe em alguns diretores. De qualquer forma, eu não estou lá com eles no set e não tem que ser uma relação pública.

Quais são os principais problemas e falhas que você vê nos filmes contemporâneos?

Isso vai soar estranho, mas eu não assisto a muito filmes. Bem, eu assisto, mas eu não os analiso. Eu acho que outros profissionais têm opiniões sobre os filmes, mas eu não as tenho. Eu amo filmes. Eu não generalizo, eu trabalho com pessoas que estão fazendo filmes, mas eu não sou um crítico.

Suponho que ser um “coach” possa ser ingrato, já que seu nome não consta nos créditos. Como você se sente em relação a isso?

São os diretores que vão e fazem o trabalho real, não sou eu. Não é necessário meu nome estar nos créditos e não é importante para mim.

Você chegou a ver algum filme brasileiro para dar o curso no Brasil?

Na verdade, nem me ocorreu fazer isso.

Não me lembro se já assisti a um filme brasileiro. Espero que isso não seja um insulto. Talvez a maioria dos cineastas que participam dos meus wokshops já tenha feito coisas maravilhosas, mas não vi várias delas. Este é o tipo de armadilha que tento evitar e falo com meus estudantes: eles não têm que assistir a filmes para serem cineastas.

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