Ricos depósitos de museus

Curadores, professores e estudantes têm encontrado tesouros culturais escondidos em áreas de armazenamento

iG Minas Gerais | David Wallis |

Curador. Timothy J. Standring tem ao fundo pintura que descobriu em 2007 nos depósitos do museu de Denver, um autêntico Canaletto
MATTHEW STAVER
Curador. Timothy J. Standring tem ao fundo pintura que descobriu em 2007 nos depósitos do museu de Denver, um autêntico Canaletto

NOVA YORK, EUA. São geralmente as galerias que chamam mais atenção na mídia, mas em muitos museus, as maiores novidades estão acontecendo em seus depósitos.

Nos últimos anos, curadores, professores visitantes, estagiários e até mesmo alunos descobriram – ou redescobriram – tesouros culturais escondidos no setor de armazenamento dos museus.

Os achados – incluindo um raro Picasso guardado; uma gravação há muito perdida de um discurso de Martin Luther King Jr. em uma caixa de papelão; e uma espécie totalmente nova de mamífero em uma gaveta repleta de espécimes – têm feito com que o setor de armazenamento dos museus deixe de ser visto como um purgatório onde peças de arte e artefatos ficam guardados sob temperatura controlada e se transforme em uma parte viva das instituições culturais, na qual a história vai sendo construída a todo o momento – ou pelo menos pedindo para ser reavaliada.

“A gente nunca sabe o que vai descobrir”, disse Timothy J. Standring, curador do Museu de Arte de Denver. Ele fala por experiência própria. Como parte de um processo que ele chama de “limpeza de primavera”, Standring inspeciona rotineiramente peças de arte que em muitos casos não são vistas há décadas.

Ele começa caçando máquinas velhas – candidatas ao descarte. Em 2007, porém, ele encontrou algo na lixeira que certamente merecia ser guardado: uma pintura a óleo imunda de uma praça de Veneza em uma moldura maltratada. Ele suspeitou que a pintura, que havia sido atribuída a um aluno do pintor paisagista italiano conhecido como Canaletto, poderia ser de autoria do famoso professor.

“Debaixo de toda a sujeira de vernizes descoloridos, consegui detectar que se tratava de uma pintura realmente impressionante”, disse Standring. Sua desconfiança mostrou estar correta. Em 2012, depois de uma extensa pesquisa e restauração realizada pelo museu, um renomado estudioso de Canaletto reconheceu o achado de Standring como um antigo trabalho do velho mestre. Agora, “Veneza: O Molo de Bacino di S. Marco” está exposto no Museu de Denver.

A história também pode se esconder em plena vista. Bob van der Linden, diretor do departamento de aeronáutica do Museu Nacional do Ar e do Espaço em Washington, recentemente retirou um mapa do Caribe usado por Charles A. Lindbergh de uma exposição. “A título de curiosidade, e para proteger o mapa melhor do que quando ele estava armazenado, resolvi desdobrá-lo. Quando eu fiz, eu vi que o mapa estava coberto de escritos”, disse van der Linden por e-mail.

Na parte de trás do mapa havia um discurso escrito e assinado por Lindbergh no dia 8 de fevereiro de 1928, que promovia o transporte aéreo comercial. Na época, ele estava passando uma temporada como relações públicas no Spirit of St. Louis, no Caribe, o avião de sua histórica travessia atlântica em 1927. “Para você ter uma ideia de como ele era um bom piloto”, disse van der Linden, “Lindbergh escreveu o discurso enquanto pilotava a aeronave instável. A caligrafia é bastante legível”.

Ainda que a Aliança Americana de Museus estimule seus membros a fazer inventários de suas coleções regularmente, não existe nenhuma política que exija que os museus se submetam a autoexames das áreas de armazenamento. “Seria difícil obrigá-los a fazer isso”, disse Ford W. Bell, presidente da associação, que observou que os museus possuem um número “impressionante” de objetos armazenados; o grupo estima que 96% a 98% das coleções não são expostas. “A realidade é que esse é o motivo pelo qual essas coleções estão onde estão – para que descobertas sejam feitas”, disse Bell.

Os museus frequentemente lutam para não acumular excessos em suas coleções, observou Ann Stone, autora de “Treasures in the Basement: An Analysis of Collection Utilization in Art Museums” (“Tesouros no depósito: uma análise da utilização de coleções em museus de arte”, em tradução livre), um artigo publicado pela RAND Corp. em 2002. “As forças que contribuem para o crescimento das coleções são muito mais intensas do que as que viabilizam seu controle e gerenciamento”, disse ela. Sabe-se que os museus costumam receber inúmeras doações que podem vingar ou não, enfrentando restrições quanto ao descarte de objetos indesejáveis e, muitas vezes, encontrando problemas por terem um espaço limitado para realizar exposições de uma coleção que cresce constantemente.

Standring, do Museu de Arte de Denver, aconselha seus colegas a planejarem visitas periódicas aos depósitos dos museus.

Raridade

Pronunciamento. O Museu do Estado de Nova York está reexaminando sua coleção por um processo de digitalização. No ano passado, um estagiário encontrou uma fita de rolo com uma etiqueta que dizia “Martin Luther King Jr., Discurso de Proclamação de Emancipação, 1962”.

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