A tragédia pessoal de Jacqueline du Pré

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“A poesia está morta, mas juro que não fui eu” (José Paulo Paes)
Intervenção sobre foto antiga de Jacqueline du Pré
“A poesia está morta, mas juro que não fui eu” (José Paulo Paes)

Dentre os mais importantes instrumentistas do século XX, duas mulheres se destacam: a pianista argentina Martha Argerich e a violoncelista inglesa Jacqueline du Pré. A primeira segue firme e forte em sua carreira, já com mais de 70 anos (nasceu em 1941). A segunda (Oxford, 1945) é uma mistura relativamente comum de sucesso artístico e fracasso existencial. É evidente que eu poderia discutir o sentido de sucesso ou fracasso existencial, mas não me permitirei essa digressão, aliás interminável. Direi apenas que ela falhou, ou que sua vida falhou quando não deveria falhar. FÁLICO E LÚDICO Como todo instrumento musical, o violoncelo é lúdico, embora não tanto quanto o violão, o cavaquinho e o pandeiro, que permitem acrobacias divertidas e doces deleites. Acresce que violão é quase sempre o primeiro instrumento de todo iniciante, pelo menos no Brasil. Quem se imagina músico começa por ele. Mas o violoncelo é também fálico, talvez o único instrumento fálico. Embora grande (ou por isso mesmo), é inserido entre as coxas e literalmente abraçado. Ao tocá-lo, quase sempre o artista, para conseguir usar o arco com mais destreza, joga o pescoço para trás e, muitas vezes, fecha os olhos, arreganha os dentes, parece respirar com dificuldade. É inevitável sentir a presença do erotismo. JACQUELINE No auge da carreira, em 1971, começou a perder a sensibilidade dos dedos, sendo diagnosticada com esclerose múltipla em 1973, quando também realizou o último concerto. Decaiu lentamente, morrendo em 1987, aos 42 anos. Suas derradeiras imagens são muito feias, lembrando Stephen Hawking, o grande físico teórico. Transfigurada, atrelada a uma inseparável cadeira de rodas, lá está ela, o retrato vivo do desamparo. Mas não deixou de rir e sorrir, olhos apertados e dentes tortos. BARENBOIM Em primeiro de janeiro de 1966, Jacqueline encontrou Daniel Barenboim, pianista e regente argentino de nacionalidade quádrupla: argentina, israelita, espanhola e palestina. Desconheço caso similar. Paixão à primeira vista, lógico. No ano seguinte ela cancelou todos os compromissos, se converteu ao judaísmo, voaram para Israel e lá se casaram. O filme de Christhofer Nuppen, “The Trout”, rodado em Londres em 1969, gira em torno de um concerto célebre do quinteto homônimo de Schubert e reúne cinco amigos inseparáveis, exceto pela morte: Jacqueline (violoncelo), Daniel (piano), Izaack Pealman (violino), Zubin Mehta (baixo) e Pinchas Zukerman (viola). Na época, todos eram jovens (Zukerman tinha 22 anos) e começavam a aparecer na cena mundial. PULANDO O MURO No início dos anos 1980, quando Jacqueline já estava doente há quase uma década, o maestro Barenboim conheceu a pianista russa Elena Bashkirova. Para quê? Desse relacionamento nasceram dois filhos, em 1983 e 1985. Daniel se esforçou para esconder sua relação e conseguiu. Jacqueline morreu sem saber de nada. WEST-EASTERN DIVAN ORCHESTRA Em 1999, Daniel foi um dos fundadores dessa orquestra, sediada em Sevilha, na Espanha, formada, como sugere o nome, por músicos de várias nacionalidades: Egito, Irã, Israel, Jordânia, Líbano, Síria, Palestina e Espanha. Bela e exemplar mistura de povos, credos e raças, num claro desafio a preconceitos, conflitos e humilhações. Sim, a arte pode e deve ser política, o que nunca a impediu de ser arte. Em 2004, o mesmo Barenboim recebeu, em parceria com outro violoncelista notável, Rostropovich, no parlamento de Israel, o prêmio Ricardo Wolf, por sua atuação em favor dos direitos humanos e da paz mundial, no valor de 100 mil dólares. Sua metade foi destinada à manutenção da orquestra. O discurso que pronunciou ao receber o prêmio irritou a então ministra da Cultura e os deputados conservadores, mas foi aplaudido com entusiasmo pelos outros parlamentares. Nesse discurso, questionou a permanente violação dos direitos humanos pelo governo israelita em relação aos povos vizinhos, isso em pleno parlamento. Coragem nunca lhe faltou. O CONCERTO DE ELGAR Um dos momentos culminantes da carreira de Jaqueline foi a interpretação do concerto para violoncelo de Elgar, obra que todo violoncelista executa mais dia menos dia. Faz parte do repertório clássico, como teste de talento e prova de fogo. Emociona ver a ainda jovem artista sob a regência de seu já marido, Barenboim, dando tudo o que podia, com a grandeza de sua capacidade de intérprete. De vez em quando, numa das breves pausas permitidas pela intensidade sonora, um olhar de aprovação e aplauso mútuo. Como se a plateia não tivesse a menor importância. LENGA-LENGA Todo esse lero-lero não nasceu por acaso. Há poucos dias, buscando performances do concerto de Elgar no Youtube, encontrei uma versão de 2010, realizada na mesma Oxford de Jacqueline. A violoncelista era a norte-americana Alisa Weilerstein, de óbvia ascendência judia, sob a regência de – quem diria! – Barenboim. Fantástico, não é? O mundo dá tantas voltas que acaba voltando ao mesmo lugar, como uma cobra mordendo o próprio rabo. Talvez a arte tenha realmente acabado, ou esteja agonizando, respirando por aparelhos, qualquer coisa do tipo. Como escreveu recentemente Ronaldo Brito (voltarei ao assunto): “A partir dos anos 1980, a arte entrou no universo da indústria de massa (...) pela inclusão no circuito da indústria do turismo e do entretenimento. Museus são as novas catedrais. (...) O novo artista é quase o funcionário de uma indústria”. Como reagiria a intensa Jacqueline du Pré a essa tremenda banalização da arte?

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