É da sala de aula que pode sair o próximo grande negócio

Nívio Ziviani Professor emérito do Departamento de Ciência da Computação da UFMG e CEO da Zunnit Technologies Membro da academia brasileira de ciências e comendador da ordem nacional do mérito científico

iG Minas Gerais | Pedro Grossi |

Nívio Ziviani - Professor emérito do Departamento de Ciência da Computação da UFMG e CEO da Zunnit Technologies,
Membro da academia brasileira de ciências e comendador da ordem nacional do mérito científico
Lincon Zarbietti / O Tempo
Nívio Ziviani - Professor emérito do Departamento de Ciência da Computação da UFMG e CEO da Zunnit Technologies, Membro da academia brasileira de ciências e comendador da ordem nacional do mérito científico

Um dos criadores da ferramenta de busca “made in BH” que foi comprada pelo Google em 2005, Ziviani casa excelência acadêmica e empreendedorismo. Aos 67 anos, atribui parte do sucesso de BH como capital da tecnologia da informação às universidades locais.

O único local fora dos Estados Unidos que tem autonomia para trabalhar na valiosa ferramenta de busca do Google é o centro de pesquisa e desenvolvimento que a empresa mantém em Belo Horizonte desde 2007. De lá pra cá, o gigante da tecnologia já investiu R$ 350 milhões na cidade, onde emprega mais de 120 engenheiros brasileiros. Não é exagero dizer que o prestígio e o sucesso da filial brasileira do Google se deve a uma pessoa: Nívio Ziviani, professor emérito do Departamento de Ciência da Computação da UFMG e criador da Akwan, empresa vendida para o Google em 2005.

O casamento entre a excelência acadêmica e o empreendedorismo de Ziviani chamaram a atenção dos criadores do Google, Larry Page e Sergey Brin, que, em 2004, visitaram Belo Horizonte para conhecer os responsáveis pelo desenvolvimento de uma ferramenta de busca tão poderosa – o buscador Akwan, criado por um grupo de professores da UFMG.

Hoje, aos 67 anos, o mineiro de Belo Horizonte lidera um movimento que quer aproximar a universidade brasileira do mercado e transformar ideias em empresas bilionárias. A inspiração vem do modelo norte-americano, onde apenas o Massachusetts Institute of Technology (MIT) é responsável pelo surgimento de 25.800 empresas, e onde negócios surgidos em salas de aula hoje têm valor de mercado entre US$ 3 trilhões e US$ 5 trilhões.

Por que as universidades brasileiras são tão distantes do mercado? São vários aspectos. A legislação é muito amarrada, com muita burocracia e pouco estímulo a empresas que estão começando. O capital empreendedor ainda é muito acanhado e escasso para empresas nascentes. Há também o medo dos reitores e administradores de universidades porque isso implica em uma relação com a iniciativa privada, licitações e essas coisas. Embora a lei da inovação permita esse tipo de iniciativa, é preciso criar uma peça jurídica que permita à universidade pública se associar a empresas privadas, e muitos reitores têm receio de que isso vá trazer problemas administrativos.

Como funciona o modelo que deu certo no MIT e em Stanford, por exemplo?

Em Stanford teve um reitor, na década de 1950, que decidiu desenvolver tecnologia a quatro mãos com a indústria. Em um primeiro momento, a universidade era remunerada pelo trabalho de desenvolver uma tecnologia, mas o resultado da pesquisa era todo absorvido pela empresa. Depois, ele percebeu que a própria universidade poderia conceber as indústrias e mantê-las na fase de incubação e, depois, manter uma participação acionária. No MIT existe um escritório de transferência que faz exatamente isso. Ajuda a empresa a captar dinheiro e dá um mínimo de segurança até a segunda rodada de investimentos.

Apesar dessas dificuldades, você está desenvolvendo, dentro da universidade, sua terceira empresa que já atua no mercado de tecnologia. Deu certo, mas poderia ter dado tudo errado. A primeira empresa foi a Miner, que foi um projeto de mestrado meu com um colega chamado Vitor Ribeiro. Desenvolvemos a empresa e combinamos que se desse certo, tentaríamos envolver a universidade. A empresa foi vendida para o Uol e fizemos uma doação para a universidade. A Miner foi o embrião da Akwan, que foi lançada em 2000. Era também uma ferramenta de busca que começou a ser adotada pelo mercado. Era uma empresa de tecnologia de ponta e que demandava pesquisa de ponta. Publicamos artigos e participamos das mesmas conferências internacionais dos engenheiros do Google, por isso nossa empresa acabou chamando atenção internacional. Quando resolvemos vender a Akwan para o Google (o valor da transação não foi divulgado), tivemos um impasse burocrático que quase pôs tudo a perder. Como a universidade tinha uma participação na empresa, foi preciso que a procuradoria jurídica da universidade submetesse a venda a um conselho curador, que nem sabia como lidar com aquele tipo de situação. Isso acabou motivando a UFMG a ser pioneira nesse tipo de regulação. Hoje, a Zunnit, a terceira empresa que estamos desenvolvendo dentro desse modelo, já está sob uma regulação bem mais clara. A empresa integra o polo de tecnologia da UFMG, está sediada no parque tecnológico de Belo Horizonte (BHTec) e, hoje, a universidade tem 5% das ações, sem nenhuma ingerência administrativa.

A Zunnit também trabalha com ferramenta de busca?

Não. Ela atua nessa área quente de recomendação de sites, onde os próprios Google e Facebook estão investindo pesadamente.

Mas esse tipo de serviço não levantou a discussão sobre a invasão de privacidade e uso indevido de dados pessoais dos usuários? Essa bomba da invasão de dados estourou porque nos Estados Unidos, que concentram os servidores e empresas de internet, há leis que obrigam as empresas a fornecer dados para o governo. No Google, por exemplo, apenas uma ou duas pessoas conseguem acessar dados sigilosos dos usuários. Eles sabem da importância de manter a credibilidade, porque isso é fundamental para o negócio deles.

A aprovação do Marco Civil da internet brasileira foi considerada por especialistas como um grande avanço, evitando que a internet se transformasse num terreno sitiado e controlado por meia dúzia de empresas de telecomunicações. Você concorda com essa análise? Concordo. A grande beleza da internet é essa livre publicação e circulação de ideias. Antes, quando a gente precisava publicar um livro era necessário passar por uma editora, que aprovava ou não a publicação. A internet possibilita essa livre troca de informações e seria uma perda inestimável.

Quando você descobriu que era um empreendedor? Muito possivelmente foi quando fiz meu mestrado no Canadá, entre 1978 e 1982. Meu orientador era uma dessas pessoas que tinha a visão clara de que a universidade tinha potencial para gerar não apenas conhecimento, mas riqueza. Na época, ele me falava: “vamos empreender”, e eu não entendia o que ele estava falando. Depois entendi essa vocação da universidade e, como professor, percebi que eu poderia ser atuante nesse processo. Mas a primeira empresa só foi acontecer quase uma década depois. Hoje, sei que faço o que gosto e ainda posso produzir muito. Não penso em parar.

Belo Horizonte é reconhecida como a capital brasileira da tecnologia da informação (TI) e há até um movimento – batizado de São Pedro Valley –, que reúne start-ups de tecnologia. Por que, num ambiente tão pouco convidativo, a cidade consegue ser tão rica em empreendedorismo?

É importante dizer que hoje o ecossistema é muito mais saudável do que há dez ou 15 anos. Ainda estamos amadurecendo, mas muita coisa já avançou. Hoje, já existem linhas de financiamento exclusivas para start-ups e para empresas de inovação. Na época da Akwan, quase desistimos porque tentamos, sem sucesso, por mais de um ano um empréstimo no BNDES. Esse fenômeno das start-ups em Belo Horizonte é muito interessante, com mais de 150 empresas, e atribuo isso à excelência de universidades que atuam nessa área, como a UFMG e a PUC.

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