‘Quero revelar os vilões importantes, que são esquecidos’

iG Minas Gerais | Lucas Simões |

Noé Vitoux usa a ficção para abordar a realidade em seus filmes
noé vitoux/reprodução
Noé Vitoux usa a ficção para abordar a realidade em seus filmes

O cineasta francês Noé Vitoux, 29, fala nesta entrevista sobre suas percepções acerca do Brasil e o que o levou a querer fazer um filme em que um traficante vira super-herói. Ele discorre ainda sobre suas escolhas na hora de filmar.

Do tempo que está no Brasil, quais são suas percepções do país?

São muitas as questões que me atraem no Brasil. Morei na favela e vi de perto uma felicidade muito simples ao lado de desigualdades sociais assustadoras. E filmar essas coisas me faz pensar em algum tipo de transformação, como se eu pudesse ser agente de uma transformação necessária ao Brasil porque vejo as coisas acontecendo e quero mostrar de alguma forma.

Um traficante que vira super-herói, como é a ideia do seu próximo filme, é um caminho para transformação?

O filme não soluciona nenhum problema tão complexo quanto o tráfico, claro. Na verdade, eu quero inverter o conceito de bem e mal. O tráfico só existe no Brasil por causa de políticos e empresários corruptos. Só que o traficante é sempre visto como o grande chefão mau que comanda tudo. Quero revelar os vilões importantes, que ficam esquecidos.

Em seus filmes, você quase sempre leva a ficção para retratar uma realidade, como em “O Homem que Matou Deus”, em que índios caçam um homem branco devido à falta de comida na tribo. Porque essa preferência?

A ficção é uma forma de falar da realidade velada. O brasileiro está cansado de saber dos problemas nas favelas, a polícia injusta, a corrupção política etc. Por isso, “O Homem que Matou Deus” fala de uma caça ao homem branco supostamente absurda, uma realidade aumentada, mas que faz sentido se você puxar a história e ver que os homens brancos acabam cada vez mais com as reservas, os alimentos e o espaço dos índios. Se acabar tudo na aldeia, eles vão comer o quê? Quem os oprime, claro.

Quais as principais diferenças de filmar na França e no Brasil?

A França tem um cinema autoral forte, que o Brasil não tem tanta tradição. Mas lá a censura é grande e os investimentos são baixos para o cinema que eu faço. Apesar de o Brasil não ter tanto investimento também, aqui tem assuntos mais urgentes e interessantes para serem discutidos.

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