Olhar francês sobre o Brasil

Noé Vitoux transformou índios em atores, filmou a ideologia Black Bloc e inventou um traficante que é super-herói

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Oficinas. Noé Vitoux realizou oficinas de ator com os índios de Rondônia para ensinar conceitos básicos de atuação e câmeras
fotos: noé vitoux/reprodução
Oficinas. Noé Vitoux realizou oficinas de ator com os índios de Rondônia para ensinar conceitos básicos de atuação e câmeras

À primeira vista, o francês Noé Vitoux, 29, parece apenas mais um cineasta maluco. Primeiro, ele trocou o charme de Paris para morar em uma aldeia indígena no interior de Rondônia, sob um sol escaldante de 40º. Depois, alugou um pequeno barraco no morro do Vidigal, no Rio de Janeiro, para vivenciar a expressão favela, que ele só conhecia pela televisão. Por fim, vai começar a filmar um curta-metragem sobre um traficante que se torna super-herói para combater políticos e empresários corruptos do Brasil. Impensável, não?

O que parece estranho para os padrões tupiniquins, porém, nada mais é do que um retrato lúcido e cru das nossas injustiças sociais, vistas pela câmera de um estrangeiro inconformado. Aos 11 anos, ele veio visitar um tio que era médico na Amazônia e descobriu que o Brasil não se resumia a Pelé, Carnaval e mulatas de biquíni no calçadão. Voltou depois de fazer 18 anos e, entre algumas idas e vindas, quis ficar, na última visita, em setembro do ano passado. “Percebi o tanto de sofrimento e dor escondidos aqui, junto com uma cultura extremamente rica. Aquilo era outro mundo comparado ao meu, na França”, diz.

Sem dinheiro, patrocínio, equipes de apoio ou outras parafernálias dos sets de filmagem, Noé usa apenas uma câmera Canon 5D e um microfone externo para fazer seus filmes, além de ter o auxílio de um notebook que ele carrega para todo lado para editar os vídeos – ao todo, já são mais de dez filmes produzidos. Seu trabalho mais recente é o curta-metragem “Black Bloc – Uma História de Violência e Amor”, lançado no último dia 1º de abril. Além de um título nervoso, o filme é o primeiro a retratar a ideologia dos black blocs que atuam no Brasil, após a tática ganhar força com as manifestações de junho do ano passado. Todo o curta de três minutos é narrado pela atriz Thaís Rissi e usa cenas de ações reais dos black blocs.

“Eu escrevi o roteiro para mostrar a ideologia black bloc. Mas meu filme acabou censurado no Short Film Festival, na França, porque o júri alegou que fere a moral e os bons costumes. Mas no Brasil tenho tido reconhecimento”, revela Noé.

Um reconhecimento que também o levou a ganhar uma estatueta no Festcineamazônia 2013, maior premiação cinematográfica da região Norte, com seu principal curta-metragem, “O Homem que Matou Deus” (2012), que também concorreu no Short Film Corner 2013, premiação para curtas de Cannes.

Para filmar o curta, Noé teve orçamento de apenas 500 euros e morou por quatro meses na comunidade indígena de Sagarana, no interior de Rondônia, que é habitada por sete povos indígenas. O filme é integrado por mais de 50 índios e conta a história de uma tribo que, ao perceber a falta de animais para se alimentar na floresta, decide caçar o homem branco. “Os livros de história fantasiam um pouco a colonização brasileira, não mostram o sofrimento real dos índios. Quis mostrar isso de outra ótica. Selecionei e treinei índios para serem atores, e fui muito bem recebido. Foi um trabalho duro, tive que me habituar a viver como eles, morando em ocas. Como não havia homens brancos na tribo, eu tive que fazer o papel do homem branco que é caçado”, diz.

Antes de se mudar para o bairro Santa Teresa, no Rio, onde mora hoje, o cineasta passou mais de um mês vivendo em uma casa de quatro cômodos e tijolos à vista, no morro do Vidigal. “Lá é pacificado, o pessoal é muito tranquilo. Não vi violência, apesar de dizerem que a favela é um lugar perigoso”, diz.

O alerta sobre perigos ainda é um dos empecilhos para a filmagem de um dos seus projetos mais ousados. No curta-metragem ficcional, que deve ter cerca de 10 minutos, um traficante se torna super-herói e dedica sua vida para combater crimes de políticos corruptos, banqueiros donos de lucros exorbitantes e empresários inescrupulosos.

A ideia inicial é compor o elenco basicamente com moradores da comunidade, mas o perfil do “herói da favela” ainda não foi definido. “É claro que vai ser um tipo bem brasileiro, O que quero mesmo é mostrar que gente muito poderosa não deixa o tráfico acabar”, destaca.

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