Uma vida avessa à solidão

Admirado por nomes como Bill Clinton e Fidel Castro, Gabriel García Márquez viveu intensamente sua época

iG Minas Gerais |

Gabo mostra a língua para os fotógrafos ao chegar em Aracataca, sua terra natal, em 2007
foos ap/arquico
Gabo mostra a língua para os fotógrafos ao chegar em Aracataca, sua terra natal, em 2007

Gabriel García Márquez publicou sua primeira obra de ficção como estudante, em 1947, enviando uma pequena história para o jornal “El Espectador” após seu editor literário escrever que “a geração mais jovem da Colômbia não tem mais nada a oferecer em termos de boa literatura”. Cidade do México, México.

A escrita de García Márquez foi constantemente marcada por seus pontos de vista políticos de esquerda, eles mesmos forjados em grande parte por um massacre de trabalhadores bananeiros em greve em 1928, perto da cidade de Aracataca. Duas décadas depois, ele foi muito influenciado pelo assassinato de Jorge Eliécer Gaitán, um candidato presidencial de esquerda.

A primeira vez que Gabriel García Márquez escutou o nome de Fidel Castro foi em 1955, segundo o jornal “EL País”. E foi pela boca do poeta cubano Nicolás Guillén, quando estava exilado em Paris. Três anos depois, já em Caracas, soube do triunfo do jovem Fidel. Demorou apenas 15 dias para que Gabo embarcassem um avião com outros jornalistas rumo a Havana, onde participou da fundação da agência Prensa Latina, criada em meados de 1959 por Jorge Ricardo Masetti e Che Guevara. A partir de então, a relação do escritor com Cuba se tornou íntima, assim como tudo a se referia a ela, inclusive e principalmente Fidel Castro.

Foi na ilha que Gabo fundou e dirigiu uma das principais escolas de cinema do continente , a Escuela de Cine y TV de San Antonio de los Baños, para se contrapor à “cinematografia imperialista”. Amante de cinema, escreveu diversos roteiros para serem filmados por seus amigos cineastas.

Em 1981, entrou em conflito com o governo da Colômbia, que o acusou de simpatizar com o grupo rebelde M-19 e enviar ajuda financeira a um grupo guerrilheiro venezuelano. García Márquez mudou-se para a Cidade do México, sua principal casa para o resto da vida.

Apesar de ter tido seu visto negado para os Estados Unidos durante a sua militância política, ele foi elogiado por presidentes e reis, e colecionou amigos como François Mitterrand e Bill Clinton, a quem defendeu da perseguição política após o escândalo das aventuras sexuais com Monica Lewinsky. O próprio Clinton lembrou em uma entrevista à AP em 2007 que durante a sua faculdade de direito não conseguia largar o livro

Da infância pobre até as dificuldades da vida adulta, García Márquez transformou-se um pouco mais tarde por conta de sua fama e riqueza. Um bom vivant, com uma personalidade travessa, o escritor sempre foi um animado anfitrião que gostava de contar longas histórias para os seus convidados.

O autor passou mais tempo na Colômbia em seus últimos anos, frequentando o Instituto de Jornalismo da cidade portuária de Cartagena, onde mantinha uma casa. García Márquez recusou ofertas de postos diplomáticos e desprezou diversos convites para concorrer à presidência da Colômbia, embora tenha se envolvido nos esforços pela paz entre o governo da Colômbia e os rebeldes de esquerda.

Em 1998, já aos 70 anos, García Márquez realizou um antigo sonho de sua vida: a compra de uma participação majoritária na revista colombiana “Cambio” com o dinheiro do seu Nobel. Antes de adoecer com câncer linfático em junho de 1999, o autor contribuiu maciçamente para a revista. “Eu sou um jornalista, eu sempre fui um jornalista”, disse ele na época. “Meus livros não poderiam ter sido escritos se eu não fosse um jornalista, porque todo o material foi retirado da realidade”.

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