A vez dos meninos

iG Minas Gerais |

Hélvio
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A minha última coluna encontrou abrigo em muita gente boa que ainda acredita que as coisas podem melhorar a partir das pequenas transformações, aquelas que acontecem dentro antes de fazerem eco. Foi bonito e comovente ver mulheres e homens se apropriando de um diálogo tão íntimo, mesmo quando, em alguns casos, o interlocutor era apenas uma conjectura. Mas se minha preocupação com a maneira como minha caçula vai se relacionar com um entorno que não se envergonha de ser tão machista e tacanho pareceu legítima para tanta gente, ela trouxe como bagagem uma outra conversa ainda mais urgente, desta vez com meus dois filhos homens. Porque desconfio que as mães de meninos da minha geração têm a chance de fazer uma revolução. Tenho esperança de que os exemplos já tenham feito boa parte do trabalho. No apartamento de paredes turquesa do bairro Silveira, não existe diferença entre atividades masculinas ou femininas; os homens não “ajudam” nas tarefas de casa, já que elas são também responsabilidade deles; por gosto e aptidão, é o pai quem prepara as refeições da família; ninguém se sente na obrigação de completar o outro, preencher todas as suas lacunas; as contas são divididas, sem que isso seja um evento; a carreira dos adultos têm a mesma importância e investir nelas sempre foi uma escolha pessoal; meninos choram sempre que têm vontade e não se constrangem em escancarar suas fraquezas; a gentileza é uma meta de vida e não tem nenhuma relação com gênero. Mas eles são adolescentes e esse recente e emocionante aumento da energia feminista visto nas ruas e nos discursos não deixou de fazer multiplicar interrogações em suas cabecinhas. Experimentando suas primeiras interações, começam a se preocupar se bem intencionados elogios ou flertes físicos podem ser, acidentalmente, confundidos com assédio ou comportamento discriminatório. A boa notícia, meninos, é que não há necessidade de entrar em pânico! O feminismo significa querer que todos sejam tratados de forma igual, simples assim. Significa que mulheres não devem ter medo de andar na rua, não devem ser abordadas com gritos agressivos e intimidadores vindos de estranhos que não têm a menor intenção de estabelecer uma relação civilizada com elas, não devem ser tratadas como objetos sexuais, não devem se sentir como se os homens tivessem um direito inerente a seus corpos em espaços públicos. Estão vendo, a diferença entre assédio sexual e paquera é realmente bastante clara e é até um pouco insultante que boa parte dos homens não a reconheça. Mas se ainda assim pintar alguma dúvida, vocês sempre podem repassar essa lista de perguntas: — A maneira como estou avançando pode assustar ou alarmar a pessoa? — A pessoa já deixou claro para mim que está desinteressada em meus avanços? — Será que a velocidade do meu interesse em movimento exclui qualquer possibilidade de uma reação? — Será que o contexto dessa situação (uma entrevista de emprego, por exemplo) faz uma ofensiva ser inapropriada? — Estou, realmente, considerando todas as coisas, ou sendo apenas um pouco cara de pau? Se a resposta a alguma das situações acima for “sim”, então é hora de recuar. Mas não desistam de colecionar alguns beijos roubados. É uma dessas pequenas felicidades da vida e vocês saberão a hora em que eles farão muito sentido.

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