Morre Gabriel García Márquez

Considerado um gênio da literatura, um dos escritores mais admirados e traduzidos do mundo morreu ontem, aos 87 anos, em sua casa, no México

iG Minas Gerais |

“Depois que faço em meus romances a última leitura, eles já não me interessam. O livro é como um leão morto”
Eduardo Verdugo/associated press
“Depois que faço em meus romances a última leitura, eles já não me interessam. O livro é como um leão morto”

Cidade do México, México. Depois de um período internado por algumas semanas, com infecção pulmonar e das vias urinárias, morreu ontem, aos 87 anos, o escritor colombiano Gabriel García Marquez, ganhador do prêmio Nobel de literatura de 1982. Ele estava em casa, na Cidade do México. O corpo do escritor está sendo velado em uma funerária na região de San Jerónimo. 

Desde o momento em que a notícia da morte do escritor foi divulgada, amigos, familiares, leitores e colegas chegaram à casa de García Márquez, em Paseos del Pedregal.

García Márquez viveu na Cidade do México por mais de 30 anos e enfrentava sérios problemas de memória, embora a família, com exceção do irmão Jaime García Márquez, evitasse publicamente vincular seus problemas de saúde ao mal de Alzheimer. A última aparição pública de Gabo, como era conhecido dos amigos íntimos, foi em seu aniversário, em 6 de março. Ele sorriu para os jornalistas, mas não falou com a imprensa.

Figura mais popular da literatura hispânica desde Cervantes, García Márquez ficou conhecido como um dos pais do realismo mágico, gênero literário desenvolvido nos anos 1960 e 1970 e caracterizado pela inclusão de elementos fantásticos no cotidiano ordinário.

De todos os seus livros, cujas vendas alcançaram mais de 50 milhões de cópias, o mais lido certamente é “Cem Anos de Solidão” (1967), épico sobre uma família fictícia, Buendía, numa cidade imaginária, Macondo. Nele, o escritor mescla lembranças pessoais a acontecimentos extraordinários, antevendo o próprio drama pessoal que enfrentaria na velhice (uma cidade inteira perde a memória no livro).

Além de” Cem Anos de Solidão”, ele é autor de “O Outono do Patriarca”, “Ninguém Escreve ao Coronel”, “Crônica de Uma Morte Anunciada” e “O Amor nos Tempos do Cólera”, seus romances mais populares.

Gabo também é associado aos nomes mais representativos do chamado “new journalism”, corrente do jornalismo marcada pela liberdade com que são retratados fatos reais, à qual pertence o norte-americano Tom Wolfe.

Aos 20 anos, Gabriel García Márquez mudou-se para Bogotá, onde estudou direito e ciências políticas sem, no entanto, obter o diploma, começando a trabalhar um ano depois como repórter do jornal “El Heraldo”, em Barranquilla. Ele também foi crítico do “El Espectador”, antes de partir para a Europa, em 1961, como correspondente estrangeiro. Sua obra jornalística completa foi publicada no Brasil pela editora Record.

No “El Espectador, publicou seu primeiro conto, em 1947, “La Tercera Resignación”, sendo anunciado pelo editor do suplemento literário do jornal, Eduardo Zalamea Borda, como o “novo gênio da literatura colombiana”. Foi exatamente nessa época que García Márquez se uniu a um grupo de estudos de Barranquilla, que se reunia diariamente na livraria de um grande intelectual, Ramón Vinyes. Gabo assinava uma coluna no “El Heraldo” e discutia literatura com os colegas, em especial as obras de Albert Camus, John dos Passos e William Faulkner, esse último a grande influência literária do escritor, assumida na autobiografia, “Viver para Contar”, e mesmo antes, no discurso que fez ao receber o Nobel, em 1982.

A década de 1940 foi marcada pela boemia e pouco dinheiro. Ele morava em pensões baratas de bairros pouco recomendáveis. Em 1950, quando escrevia seu primeiro romance, provisoriamente chamado “La Casa”, voltou ao povoado onde viveu os primeiros anos, Aracataca, para vender a casa dos avós, com quem passou parte da infância. Lá, teve uma espécie de epifania, ao perceber que o povoado sonolento e empoeirado que conheceu quando criança não guardava semelhanças com o que via.

Mudou o título do romance e criou, então, a cidade fictícia de Macondo, da mesma forma que Faulkner inventara o condado de Yoknapatawpha, microcosmo que representa uma alegoria do profundo Mississipi.

Os anos 1950 foram difíceis para Gabo. Como correspondente de “El Espectador” na Europa, recebia atrasado e passou por sérias dificuldades. Já havia escrito “Ninguém Escreve ao Coronel” (1958) quando sua situação ficou parecida com a do oficial do livro, à espera de uma carta que finalmente garantisse seu sustento até o fim da vida. Já casado e com dois filhos, nos anos 1960, errou pelo sul dos EUA, mas não conseguiu visto de permanência por ser filiado ao Partido Comunista. Ele só retornou aos EUA em 1971, para receber o título de doutor honoris causa da Universidade de Columbia. Fiel ao comunismo e aliado dos cubanos, criou em Cuba um curso de cinema pelo qual passaram alguns realizadores brasileiros. Ele mesmo teve experiências na área, assinando a adaptação cinematográfica de “O Galo de Ouro”, de Juan Rulfo, feita em 1963 em parceria com Carlos Fuentes.

Quatro anos depois, com “Cem Anos de Solidão”, ele conquistaria o mundo literário, recebendo do poeta chileno Pablo Neruda seu maior elogio: “É o melhor romance escrito em castelhano desde Cervantes”. Seu último livro foi publicado em 2004, “Memória de Minhas Putas Tristes”.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave