‘Fantasmas’ e fraudadores desviam verbas de crianças

Tomadas de preços com fraudes grosseiras serviam para justificar desvios; restaurante do presidente da Glacus foi usado para montar tomada de preços falsa

iG Minas Gerais | Da Redação |

Imóvel de Adriana Clarindo de Souza, irmã de Carlão, usado como sede de empresa de lanche, nunca abriu as portas
NELSON BATISTA/ARQUIVO
Imóvel de Adriana Clarindo de Souza, irmã de Carlão, usado como sede de empresa de lanche, nunca abriu as portas

Em desvio de verbas no convênio Socialização, celebrado entre a Secretaria Municipal de Assistência Social e o Núcleo Assistencial Irmãos Glacus em 2013, quando a pasta era comandada pelo ex-secretário Edson Leonardo Monteiro, o Léo Contador (DEM), falsificavam de tudo.

Notas fiscais de serviços não executados eram acobertadas também por licitações fraudadas, em impressos produzidos com a mesma fonte digital.

Documentos obtidos com exclusividade pela reportagem O Tempo Betim revelam como eram operadas as tomadas de preços do convênio, que possibilitaram desvios que somam cerca de R$ 1 milhão, segundo auditoria realizada por profissionais independentes e entregue ao prefeito Carlaile Pedrosa (PSDB), ao Ministério Público e à Câmara Municipal.

Apesar de já ter sido comunicado, o prefeito ainda não apresentou medidas para a recuperação dos desvios. “O que se tem são provas. O prefeito deve agir a fim de recuperar o prejuízo”, afirmou o ex-controlador Robespierre Miconi, demitido sob constrangimento após o retorno do prefeito.

As documentações reproduzidas ao lado demonstram falsificações grosseiras, sem assinaturas e que omitem endereços e telefones em uma tomada de preços - uma modalidade de licitação - realizada pela Glacus no dia 20 de novembro de 2013.

A finalidade da concorrência era o fornecimento de lanches para eventos, mas o resultado sempre favorecia empresa Bom Lanche, criada pelo ex-locutor de Carlaile, Carlos Alberto Clarindo, o Carlão. Essa empresa, que é de propriedade de sua irmã, Adriana Clarindo, na verdade, nunca funcionou. De acordo com a própria Adriana, em declaração anterior feita ao jornal, ela nunca soube que sua empresa estava sendo usada para fornecimento de lanche e outros produtos, apesar da Bom Lanche ter ganho a concorrência realizada pela Irmãos Glacus, em novembro.

Adriana declarou que a empresa começaria a fornecer lanches para a Semas somente em maio deste ano, apesar de ter movimentado importâncias estimadas significativas. Na realidade, a empresa era utilizada pelo seu irmão, e as operações contábeis, efetuadas por Amarildo Alves, ex-sócio de Leo Contador.

De R$ 370 mil em cheques que chegaram à Câmara Municipal como provas dos desvios, segundo auditoria, cerca de R$ 250 mil foram emitidos em favor da empresa de Adriana, porém, a frequência e os valores das notas indicam que a movimentação passou de R$ 600 mil, através de um bloco de notas fiscais autorizado pela Receita Estadual e de outras notas provavelmente clonadas

Montagem

Um dos orçamentos apresentados na tomada de preços fraudulenta era de uma empresa identificada como Ferreira e Reis Restaurante e Lanchonete Ltda., cuja propriedade é do presidente da Glacus, João Augusto Reis.

A empresa, localizada em um posto de combustíveis às margens da BR–381 e conhecido como um famoso reduto de prostituição, também não apresenta infraestrutura para o tipo de serviço.

Um segundo orçamento traz o carimbo de RJ Restaurante e Lanchonete Ltda., localizado no bairro Pedreira. Endereço apontado no orçamento desta outra empresa não existe. A reportagem foi ao endereço mencionado, mas nenhum morador soube dizer se, no local, existia algum tipo de comércio. O presidente da Glacus, João Reis, atendeu a ligação da reportagem e, apesar de muito irritado, disse que as denúncias publicadas pelo jornal “são frutos de uma briga política” e que elas estão lhe “prejudicando muito”.

Antes de desligar o telefone, Reis confirmou que seu restaurante chegou a apresentar um orçamento nessa tomada de preços e que ele “não vê ilegalidade nisso”. “Pode ser imoral, mas não é ilegal”, concluiu. Os outros envolvidos não foram encontrados.

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