Com a palavra, a filósofa e poeta mineira Adélia Prado

iG Minas Gerais |

DUKE
undefined

São muitas as más lembranças que guardo da ditadura militar, que se iniciou, na verdade, a partir do dia 2 de abril de 1964, mas não vou aporrinhá-lo com isso, leitor. Ela me alcançou já casado e pai de dois filhos, às vésperas do terceiro – finalmente uma menina, que substituiu aquela que, sabiamente, durante nove meses, só viveu no ventre materno. Não quis continuar conosco naquele atribulado mundo. Minha condição de pai me serviu de freio. O mesmo, porém, não aconteceu com meu amigo e ex-colega de escritório José Edgar Amorim Pereira, que se ligou à AP, foi preso e demitido do Banco do Brasil, de onde era advogado. O golpe militar (e civil – sem esse apoio talvez não vingasse) se deu dois anos antes de assumir, em Minas Gerais, a diretoria regional do “Jornal do Brasil”. Na época, o maior jornal do país. Vivi, portanto, leitor, durante mais de 20 anos (e aqui prometo que dou por encerrado esse assunto indigesto), doída e prolongada escuridão que, espero, tenha nos deixado muitas lições. A maior delas: não há nada melhor para o desenvolvimento humano e material de qualquer país do que o exercício permanente da liberdade. Mas não é a isso que quero agora me referir. Essas lembranças, por piores e mais insistentes que venham a ser, embora façam parte de um desagradável pesadelo, me fazem voltar ao que disse a filósofa e poeta Adélia Prado, recém-entrevistada pelo programa “Roda Viva”. Foi ela quem afirmou, num desabafo sincero, que, atualmente, “estamos vivendo um tempo muito cinzento, uma ditadura disfarçada”. Com um linguajar manso e simples, mas carregado de significado, continuou Adélia na sua diatribe: “Estamos vivendo num país muito triste. Não me sinto num país democrático. Por causa dos desmandos políticos. O que predomina, hoje, é uma troca de favores, em todas as instâncias. As pessoas se calam. Ninguém fala nada. Está tudo muito ruim. Os Poderes da República estão omissos. Até mesmo na ditadura, por época das Diretas, Já, o país estava mais vivo do que agora. Vivemos a transparência do mal, que está generalizado e se enraizou. O mal, de tão generalizado, ficou transparente”. E, num recado aos candidatos à Presidência da República, mas com a clara intenção de também dizer algo a todos nós, eleitores, perplexa, perguntou: “E quem, hoje, está aglutinando as esperanças e o desespero das pessoas?”. Dizendo-se integrante da plebe, mas grata às pessoas que sempre respondem favoravelmente ao que escreve, Adélia tenta explicar a sua poesia: “O que alimenta minha poesia é o susto que tenho com a vida. Todo poeta vive do cotidiano. Afinal, o que tem a pessoa mais do que isso?”. Contrariando Vinicius de Moraes, que dizia que o poeta, para fazer poesia, precisa ser triste, advertiu: “Todo autor fala é das paixões humanas, da perplexidade ou do assombro de existir. Ninguém escreve poesia porque é triste ou alegre. A poesia vem de outro lugar, que inclui a tristeza e a alegria. Quem sou eu, de onde vim, para onde vou? Toda arte é uma tentativa de dar resposta a essas perguntas”. A propósito, se a política é também arte, todo aquele que encarna o poder deveria se fazer, pelo menos uma vez por dia, a mesma pergunta. Só assim, ciente da gratuidade e da finitude da vida, saberá conduzir bem um país tão carente e sofrido como o nosso. Quantas vezes Lula e Dilma se fizeram tal pergunta? Ou essa é uma questão que sempre passou bem longe dos dois?

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave