O voraz jogo de divergir e crescer

Ficção científica imagina um vestibular pós-apocalíptico em “Divergente”

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Suando a camisa. Crescer envolve muito sangue, suor e lágrimas para a protagonista de “Divergente”
Paris
Suando a camisa. Crescer envolve muito sangue, suor e lágrimas para a protagonista de “Divergente”

Escolha uma carreira. Uma universidade. Escolha seus amigos. Escolha um carro. Um emprego. Uma cidade. Um partido. Uma posição política.

Existe um momento, entre o fim do colégio e o início da faculdade, em que se é obrigado a tomar decisões, mesmo não estando pronto para quase nenhuma delas. Porque são escolhas que definem quem você é, ou quem será pelo resto da vida. E com 18 ou 20 anos, ninguém sabe ao certo.

É esse o ponto de partida para a distopia criada pela autora Veronica Roth em “Divergente”. Em (mais um) futuro pós-apocalíptico, Chicago é uma sociedade dividida em castas, separadas pelas personalidades de seus membros: Erudição (intelectuais), Amizade (agricultores), Abnegação (servidores) e Audácia (protetores). No fim da adolescência, os jovens devem fazer uma mistura de vestibular com teste de personalidade e decidir se permanecem na casta de seus pais ou partem para outra mais adequada a suas aptidões.

O problema é que o teste da protagonista Beatrice (Shailene Woodley) é inconclusivo, fazendo dela um dos perigosos “divergentes” do título. Atraída pela liberdade e o perigo inerentes à Audácia, a garota opta por se alistar nessa espécie de exército da civilização local. E acaba envolvida nas intrigas políticas de um golpe de Estado.

Toda essa alegoria, porém, é mera desculpa para um conto de amadurecimento e identidade. O longa vai tirando todas as muletas que sustentam a protagonista – os pais, os amigos, a estrutura da sociedade em que ela acredita – para que Tris entenda que crescer é perder pedaços até que sobre somente o que você é. Se “Jogos Vorazes” funciona como análise macro dos valores deturpados de uma sociedade em que tudo, incluindo violência e miséria, é um espetáculo, “Divergente” é um estudo micro sobre os percalços de crescer.

A ideia de sair de casa e se descobrir é o início de uma grande metáfora que o filme reitera nas várias imagens da protagonista pulando ou se jogando rumo ao desconhecido. Mais que puro amadurecimento, porém, o filme dirigido por Neil Burger (“Sem Limites”) constrói bem a ideia dessa sociedade rigidamente controlada como um trem nos trilhos e os personagens como passageiros que têm que correr e sofrer para estar nele ou saltar dele.

Enamorado demais e exagerando nas muitas cenas de testes alucinatórios, Burger se esforça para construir esse mundo nas cores do design de produção e especialmente nos figurinos que definem cada uma das castas. Mas, mesmo ajudado por Kate Winslet (que acerta ao interpretar sua erudita Jeanine como uma personagem, e não uma vilã), o longa nunca consegue fazer o espectador se importar muito com a política do lugar, o que faz o ato final parecer esticado e as sequências de ação forçadas.

A única história que cativa é o crescimento da protagonista, que fica bem claro na troca de identidade de Beatrice para Tris. E mesmo aí reside outro problema do longa. O subtexto da história é constantemente martelado de forma nada sutil, seja em diálogos ou nos vários discursos sobre o funcionamento da sociedade, que tornam o filme muito expositivo e subestimam a inteligência do público.

Esse desequilíbrio entre excesso de exposição e falta de trama é o resultado da febre atual de que tudo deve ser uma trilogia. Para competir com o escopo narrativo da TV, as histórias são alongadas e os capítulos nem sempre se sustentam sozinhos.

No meio desses problemas de linha de produção sufocando a narrativa, quem salva o longa com um sopro de autenticidade é a jovem Shailene Woodley. Com uma expressão que mistura a insegurança e a bravura adolescentes, a atriz constrói uma garota disposta a apanhar e bater, não para salvar o mundo, mas para descobrir quem ela é. É a paixão e a fragilidade que Woodley confere a esse desejo tão universal que carregam “Divergente”.

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