A resistência do girl power

Sucesso de sagas como “Jogos Vorazes”’ e “Divergente” tenta combater forte sexismo da indústria hollywoodiana

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Promessa. Nova queridinha de Hollywood, Shailene Woodley ainda será vista neste ano em “A Culpa é das Estrelas”, outro best-seller juvenil
fotos paris / divulgação
Promessa. Nova queridinha de Hollywood, Shailene Woodley ainda será vista neste ano em “A Culpa é das Estrelas”, outro best-seller juvenil

O filme de maior arrecadação nas bilheterias mundiais lançado em 2013 foi “Frozen”, uma animação protagonizada por duas personagens femininas. A maior bilheteria nos EUA no ano passado também foi capitaneado por uma garota, a Katniss Everdeen de “Jogos Vorazes: Em Chamas”. Para além dos dólares, o longa que saiu com o maior número de estatuetas no último Oscar, “Gravidade”, foi o show de uma mulher só – a atriz Sandra Bullock, também protagonista da comédia mais bem-sucedida de 2013, “As Bem Armadas”.

Se os números não mentem, eles podem ser enganadores. Ou talvez Hollywood seja simplesmente cega. Mesmo com os dados do primeiro parágrafo, longas protagonizados por personagens femininas – como “Divergente”, que chega nos cinemas de Belo Horizonte hoje (leia crítica na página 5) – representaram apenas 15% dos cem principais lançamentos hollywoodianos em 2013. Os números, do estudo “It’s a Man’s (Celluloid) World” do Center for the Study of Women in Television and Film da Universidade de San Diego (EUA), revelam ainda que personagens masculinos com falas superaram os femininos em uma média maior que 2 para 1.

“Filmes como ‘Jogos Vorazes’ e ‘Divergente’ são progressistas pelo simples fato de serem contados a partir de um ponto de vista feminino”, afirma a dra. Martha Lauzen, diretora executiva do Centro e responsável pela pesquisa realizada anualmente. Mas os dois longas se tornam anomalias ainda maiores ao trazerem protagonistas femininas – cujo objetivo central não gira em torno de romances, homens ou casamento – em blockbusters de ação e aventura, nos quais as mulheres são normalmente relegadas ao papel da namorada, mãe ou esposa.

Em uma recente mesa-redonda para o “The Hollywood Reporter”, a atriz e roteirista inglesa Emma Thompson afirmou ter passado toda sua carreira recebendo propostas para o papel da mulher que “pede para o homem não ir salvar o mundo, para não se sacrificar”. E que tinha orgulho de ter recusado todos eles.

Mesmo as sagas das jovens rebeldes Katniss e Beatrice, porém, ainda são fortemente calcadas no triângulo amoroso, como se o romance fosse indispensável ao público feminino. “Em geral, é ainda mais provável que o espectador saiba o estado civil de uma personagem feminina e a profissão de um masculino. Estereótipos sexistas têm raízes profundas, e são necessárias décadas e gerações para mudá-los”, explicaMartha.

Teste. Preocupada em conscientizar seus clientes sobre essas distorções, uma rede de cinemas sueca resolveu no ano passado usar o Bechdel Test para categorizar os filmes que exibe. Batizado com o nome de sua criadora, a cartunista norte-americana Alison Bechdel, o teste requer que um longa traga ao menos duas personagens femininas com nome, que conversem uma com a outra e sobre algo que não seja um homem. Nenhuma produção da Marvel, por exemplo, passaria.

Com a repercussão da decisão, a ferramenta passou a ser utilizada por especialistas para criticar o forte sexismo da indústria hollywoodiana. Apesar de reconhecer os méritos do teste em trazer a discussão à tona, Martha Lauzen acredita, no entanto, que ele tem suas falhas e não serve para medir a qualidade da representação feminina. Um filme como “Gravidade” que traz apenas uma personagem não passaria, enquanto “Trapaça”, que sexualiza fortemente as mulheres de seu elenco, sim.

“O teste não requer que as mulheres sejam protagonistas, nem personagens que exerçam papel central na história, estabelecendo padrões absurdamente baixos”, avalia. Martha e seu Centro preferem trabalhar com três questões-guia: se as personagens femininas têm papel essencial na trama, se são agentes de sua própria história e se são multidimensionais.

De acordo com a pesquisadora, 17% dos personagens hollywoodianos em 2013 caracterizavam-se como “líderes”. Mas ao se separarem os gêneros, os números mudam para 21% dos homens e apenas 8% das mulheres. “Alguém que se resume à esposa carinhosa ou namorada será provavelmente unidimensional. Agora, se essa esposa ou namorada é também uma poderosa advogada ou amiga de alguém, isso muda”, argumenta.

É por isso que grandes atrizes como Glenn Close têm migrado para a TV, onde esses papéis têm proliferado, comparados ao deserto criativo do cinema. “Mulheres têm um padrão de aparência mais elevados que os homens. É por isso que a maioria das personagens femininas no cinema tem entre 20 e 30 anos (quase 70%), e enquanto 55% dos masculinos têm mais de 40”, compara a diretora.

Martha defende que o segredo para mudar esse cenário se encontra atrás das câmeras. Segundo ela, o pior dado de todos é que apenas 6% dos diretores e 10% dos roteiristas que trabalharam em Hollywood no ano passado foram mulheres. “Qualquer discussão séria da representação feminina no cinema exige ir além dos padrões mínimos do Bechdel Test e imaginar um novo conjunto de critérios que peça de Hollywood mais do que o mínimo que ela pode oferecer”, resume a diretora do Centro.

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