Soluções toscas para manter trama

Séries como “Walking Dead” e “Revolution” insultam inteligência do público

iG Minas Gerais | Isis Mota |

Limpeza.Figurinos em tons de terra do elenco de “Revolution” ajudam a passar imagem de sujeira, mas eles são limpinhos demais para quem vive num mundo há 15 anos sem água encanada
NBC
Limpeza.Figurinos em tons de terra do elenco de “Revolution” ajudam a passar imagem de sujeira, mas eles são limpinhos demais para quem vive num mundo há 15 anos sem água encanada

Não dá para assistir televisão com os pés muito fincados na realidade, afinal é ficção. Mas certos programas acabam insultando a inteligência do espectador. Em “The Walking Dead”, o apocalipse zumbi foi há anos, todas as lojas e casas estão abandonadas, nossos heróis sobreviventes estão sempre fugindo, mas ainda tem gasolina para carros e motos nos momentos em que os personagens mais precisam.

Não existe nenhum sistema de comunicação como os que conhecemos hoje. Aí o público fica se perguntando como, por mais que os personagens se espalhem pelo país, seus caminhos acabam se cruzando de novo – sem GPS, sem rádio ou telefone.

Em “Revolution”, houve um apagão total 15 anos atrás. O mundo, desde então, não tem nenhum tipo de energia e todos vivem praticamente na idade da pedra, lutando com pedras, paus e espadas. Sem carros, sem computadores, sem energia elétrica e, consequentemente, sem fornecimento de água. Mas... todo mundo é limpinho.

Eles não têm as mínimas condições de higiene, nem remédios, muitos passam fome, o dinheiro não tem valor porque não há o que se comprar. Logo, metade da população deveria estar morrendo de gripe, diarreia, cólera, sarampo ou mesmo de pura e simples desnutrição. Mas, ainda assim, nas duas séries, só uma vez as doenças se espalharam. E apenas quando serviram a algum propósito do roteiro.

“The Following”, que trouxe Kevin Bacon de volta ao horário nobre, começou no ano passado como um dos suspenses de maior potencial do ano, e acabou sendo praticamente a vergonha da temporada, ao apresentar o FBI mais burro do mundo. Em vez de colocar o público sentadinho na beirada do sofá esperando pela próxima reviravolta, o que a série faz é levar o espectador a se perguntar o tempo todo: “Como assim?”

As soluções mais toscas sempre prevalecem. O personagem que morreu reaparece vários episódios depois. E você pode escolher: tem a que fingiu de morta mas estava no programa de proteção à testemunha, tem o que fingiu de morto mas colocou o corpo do irmão no lugar do seu para que o teste de DNA indicasse compatibilidade, tem a que fingiu de morta se escondendo no retiro de um culto maluco… E tem personagem que não existia na primeira temporada, mas aparece na segunda com o discurso “Eu sou a única parente que te resta, agora temos que nos unir, eu sou policial e vou te ajudar a investigar tudo”. Tentativa mal-amarrada de renovar o elenco com um rostinho bonito e melhorar a audiência.

Mesmo o clássico conto de fadas “Once Upon a Time”, que tem toda a liberdade do mundo para ir e vir nas histórias que conta, tem mais dignidade: seus roteiristas já declararam que, apesar de ser um programa sobre magia, quem morre lá morre de verdade. O público pode ter certeza de que não vai ressuscitar com uma história furada qualquer.

Até tu, Stephen King? “Under the Dome”, adaptação do livro do mestre do terror Stephen King, mostra uma cidadezinha que é isolada do resto do mundo por uma misteriosa cúpula transparente. Até aí, tudo bem. A gente dá a mão para a ficção e vai de olhos fechados. Mas fica aquele monte de figurante no fundo da cena, para justificar a aparição de um novo personagem no meio do caminho, como se ele já existisse desde o início – só não tinha se destacado.

Aí o roteirista quer que a gente acredite que, numa cidade minúscula, em que todos estão fechados lá, todo mundo já não conhece todo mundo? É mais fácil acreditar na possibilidade de uma cúpula transparente aparecer sobre a cidade do que no fato de que alguém, nessa pequena comunidade hermeticamente fechada, seja desconhecido dos demais.

É mais ou menos como a malfadada participação de Rodrigo Santoro em “Lost”. Seu personagem, Paulo, aparece do nada e o espectador “tem que acreditar” que ele estava na ilha desde a queda do avião, só que você não tinha visto e os personagens principais nunca tinham interagido com ele. E, do mesmo jeito que apareceu, morre. Sem propósito, sem consequência.

Foi tão ruim que, na época, o produtor Jack Bender disse, em entrevista a uma revista brasileira: “O problema era do personagem mesmo, foi um erro de roteiro. Rodrigo é um excelente ator, mas o personagem dele não fazia muito sentido na trama”. Pelo menos a audiência só teve que aguentar por um capítulo.

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