Filme recria sumiço de autor

Longa “O Sequestro de Michel Houellebecq” passeia entre a ficção e o documentário para falar do escritor francês

iG Minas Gerais |

Facetas. No longa, Michel Houellebecq interpreta a si mesmo, mostrando suas várias facetas
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Facetas. No longa, Michel Houellebecq interpreta a si mesmo, mostrando suas várias facetas

Los Angeles, EUA. Michel Houellebecq não sabe assobiar e gosta de descascar vegetais para se acalmar. Ele segura seu cigarro de forma engraçada, com os dedos do meio e anular, porque quebrou o indicador em um jogo de basquete.

O autor francês, famoso pelos comentários ácidos e persona reclusa, revela suas esquisitices no longa-metragem “O Sequestro de Michel Houellebecq”, a ser exibido no Festival Tribeca, em Nova York, ainda neste mês. “Queria abordar a vida íntima do francês vivo mais lido no exterior usando como álibi a comédia e despojado de seu folclore provocativo e midiático”, disse o diretor da produção, Guillaume Nicloux, que já o havia dirigido no telefilme “L’Affaire Gordji” (2012).

O novo longa-metragem, ainda sem data para ser exibido no Brasil, caminha entre a ficção e o documentário para recontar o que aconteceu com o escritor de “Plataforma” quando ele sumiu durante uma semana em 2011 e faltou a um importante festival europeu. Rumores de suicídio e sequestro por grupos árabes rodaram o globo, até ele reaparecer e dizer que tinha simplesmente esquecido o evento.

Cativeiro. No filme, no entanto, a história é outra. Houellebecq é de fato sequestrado por três irmãos brutamontes e mantido na casa da mãe deles numa região afastada de Paris, na França. Apesar das diferenças entre sequestrador e sequestrado, o autor acaba ficando amigo da família de criminosos e se apaixona por uma prostituta, levada ao quartinho de refém como presente de aniversário. “Michel Houellebecq não participou do roteiro do filme, mas, às vezes, definíamos alguns temas que seriam abordados. Queria ouvi-lo falar de coisas diversas como Polônia, inspiração criativa, União Europeia, arquitetura, dentre outros assuntos”, explicou Nicloux, diretor de “La Religieuse” (2013). “Queria também que ele mostrasse uma faceta que as pessoas não conhecem, um homem simples, humano, com dúvidas e ansiedades. Um homem capaz de empatia e desprovido de cinismo”, completa o cineasta.

Houellebecq, 58, surge como um homem fragilizado, de andar curto e fala arrastada, mandando ver um cigarro atrás do outro. Detona Le Corbusier, difama Mozart e critica o talento de pianista da amiga que lhe dá um presente.

Antes de ser sequestrado e levado dentro de uma caixa de metal, ele interage com conhecidos na rua, como uma mulher que lhe faz compras de supermercado e um colega em frente a uma igreja. Ele comenta que não vai a missas, apenas funerais. “Casamentos também não”, completa o autor.

Momentos de ternura aparecem em situações inusitadas no longa-metragem, como quando come um sanduíche algemado e explica a um dos sequestradores como escreve seus romances. “O importante é não ter nada, é estar entediado com a vida. E daí alguma coisa acontece na sua cabeça, ideias aparecem do nada”, explica Houellebecq. “Você não escreve um livro se estiver preocupado esperando uma ligação”.

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