Como eram o cotidiano e os costumes do rabino Jesus

Soham Jnãna Escritor Autor de “O Contexto Social e Espiritual”

iG Minas Gerais | Ana Elizabeth Diniz |

Soham Jnãna
Arquivo pessoal
Soham Jnãna

O contexto social e espiritual da época em que Jesus viveu, seus costumes, fé e tradições. Esse é o tema do segundo livro de Soham Jñana, de um total de sete volumes que vão desmistificar e acabar com velhos paradigmas. Nascido em Portugal, Soham estudou na França e, há mais de sete anos, se dedica às pesquisas sobre Jesus e sua trajetória.

Em uma sociedade extremamente patriarcal, em que a mulher era inferiorizada socialmente, como Jesus via a participação delas na religião, inclusive como iniciadas, como é o caso de Maria Madalena?

Ao longo da história patriarcal, a mulher foi inferiorizada para melhor ser controlada e, sobretudo, afastada tanto quanto possível, do sagrado, sob pretexto de impureza, por medo de sua “capacidade sacerdotal” inerente à própria feminilidade e, por isso, perigosa para o domínio cultural detido pelo homem. Numa época em que era malvisto um homem, e ainda mais um rabino, falar em público com uma mulher, Jesus o fez abertamente e permitiu que as mulheres o seguissem, colocando inclusive as mais rejeitadas dentre elas em igualdade com o homem, chegando até a ensinar teologia a uma mulher.Jesus escolheu doze discípulos homens para representar as doze tribos do povo eleito de Deus. Porém, foi uma mulher que Jesus amou mais que qualquer outro discípulo a ponto de ter-lhe dado ensinamentos que os demais discípulos não ouviram. A visão que Jesus tinha da mulher e seu papel espiritual está confortada com a mensagem hermética por detrás das “histórias”, contidas no Antigo Testamento, que envolvem mulheres de uma forma muito diferente da visão cristã sobre a mulher e seu papel social e espiritual.

Quando efetivamente Jesus se torna um mestre?

Deus não está sujeito ao tempo. Por isso, metaforicamente, só falou uma vez, em tempo nenhum, numa só palavra sem som, que, antes de ser pronunciada, já tinha sido expressa na eternidade. Para os místicos judeus do século I essa “palavra” ecoava nas profundezas de todo ser, o intemporal chamado de Deus que assim interpretavam: “Unifica, Israel!”. Nascido e criado em um lar judeu, Jesus viveu e praticou o mais puro do judaísmo, se não na letra, certamente no espírito, tendo declarado: “Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir”. Receber o chamado de Deus transforma a consciência. É uma experiência maior que a do nascimento, maior que receber a própria vida, é ressuscitar, morrendo para as ilusões do mundo, descobrindo que se estava morto para a verdade. Jesus se torna mestre quando do seu batismo ministrado pelo seu primo, João. Quando Jesus emergiu totalmente da água, João bradou para todos ouvirem que reconhecia seu discípulo, Yeshua ha-Nazir, como rabi (mestre) e que tomava a todos os presentes como testemunhas. Dizendo isso, João colocou suas mãos sobre a cabeça de Jesus e procedeu à Semikhá formal de Jesus, perante todos. Embora à Semikhá se tenha, mais tarde, referido ao ritual de imposição das mãos quando da instituição de um rabino, nos tempos de Jesus era algo de mais profundo, pois era a atribuição de um estatuto de autoridade da Torah numa cadeia ininterrupta que começou com Moisés.

Qual era o sentido da Páscoa na época de Cristo?

Originalmente a festa da Páscoa e a dos Pães Ázimos eram duas festas diferentes celebradas em datas seguidas, de 10 a14 e de 14 a 21 de Nissan, respectivamente. O sangue sobre a entrada das tendas – o rito protetor que afastava o demônio – passou a ser o sangue nas ombreiras. Inteligentemente os sábios judeus preservaram o rito enraizado na crendice popular mudando sua interpretação para mais um sinal da aliança que vem juntar-se ao sinal do arco-íris e da circuncisão, tornando, em decorrência de tal assimilação, a festividade da Páscoa como um decreto perpétuo.

Que idiomas Jesus falava?

No dia a dia o aramaico, língua na qual ele adorava fazer jogos de palavras quando se expressava em algumas de suas pregações. No entanto, seus conhecimentos de hebraico eram excelentes, como todo mestre versado nas escrituras. Em consequência de seu nível social (médio-alto, e não pobre como se crê), Jesus também falava razoavelmente o grego, de uso franco, equivalente ao inglês de hoje, usado em contratos e documentos legais. Mas é muito provável que não falasse, nem entendesse, latim.

Como ele se vestia?

Durante sua juventude, Jesus usava túnica curta com meia manga, que, com o cinto, chegava a um pouco acima dos joelhos. Sob a túnica sobressaíam os tsitsiyot do talit catan, sem mangas, feito de linho fino, que usava junto ao corpo e que simbolizavam oseu envolvimento no cumprimento dos mandamentos de Deus. Sobre os ombros punha um manto curto com tsitsiyot que servia também para cobrir a cabeça.Como todo nazireu, usava cabelos compridos, mas aparava a barba. Mais tarde, depois de ter sido instituído rabi por João Batista, Jesus passou a se trajar com vestes mais próprias dos mestres nazireus. Por cima do talit catan vestia uma túnica de linho fino que descia até os pés. Sua túnica, embora simples, denotava o seu estatuto social e de sua família, já que era tecida numa só peça sem costura tal qual as túnicas dos sacerdotes do templo. A cor da túnica de Jesus era branca, porque era nazireu. Depois de se tornar rabino, ele passou a usar, por cima da túnica, um talit gadol (manto de orações), com o qual ele cobria a cabeça em reverência a Deus.

Como a época em que ele viveu o influenciou?

Em todos os aspectos, o que esse homem vivenciou, acreditou e mais tarde ensinou. Seria difícil explicar resumidamente aqui o quanto! No entanto, tudo isso foi minuciosamente relatado no meu livro “Da concepção ao batismo”. Ali, demonstro os eventos históricos que influenciaram – uns diretamente, outros indiretamente – a vida desse homem e de que forma. Nesse mesmo livro, explico o quanto ele fora influenciado por Hillel, o grande mestre fariseu e príncipe do Sinédrio, seu contemporâneo, aos pés do qual ele estudou num curto período de sua vida, juntamente com seu primo João, filho de Zacarias e Isabel. Afirmar que Jesus nasceu, cresceu, viveu e morreu como um judeu é algo muito geral, e acaba por nada dizer. É necessário especificar que nasceu, cresceu, viveu e morreu como um judeu da subseita farisaica dos nazireus. Não há como entender o homem e o rabino Jesus sem entender o que era e quais as origens do misticismo messiânico dos nazireus.

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