Toque de mestres no CD “Gilbertos Samba”

Gilberto Gil presta homenagem ao gravar sambas do repertório de João Gilberto

iG Minas Gerais | Júlio Assis |

Memória. Foto histórica nos estúdios da gravação do disco “Brasil”, em 1981: Bethânia, João Gilberto, Caetano Veloso e Gilberto Gil
Rogerio Sganzerla/wea/divulgação
Memória. Foto histórica nos estúdios da gravação do disco “Brasil”, em 1981: Bethânia, João Gilberto, Caetano Veloso e Gilberto Gil

Bastou eu começar a ouvir “Gilbertos Samba”, o novo rebento de Gilberto Gil, para me lembrar de um bolachão de capa branca. Fui ao andar de cima do armário onde guardo minha modesta coleção de vinis e lá estava o exemplar de 1981: “Brasil”, de João Gilberto, acompanhado nos estúdios pelas vozes de Gil, Caetano Veloso e Maria Bethânia; cordas e uma percussão suave.

A lembrança é porque neste novo CD, à guisa de homenagem Gilberto Gil revisita pérolas do repertório de João e o tom predominante não poderia ser acima do violão acústico. Em “Brasil” também foi assim, os doces bárbaros pós-tropicalistas cantaram belo e baixo, na cartilha do mestre, com a devida reverência, temas como “Aquarela do Brasil” e “No Tabuleiro da Baiana”, por exemplo.

Naquele disco da década de 1980 há, inclusive, uma das faixas que Gil revive no disco de agora, “Milagre”, de Dorival Caymmi. Dentre outras das 12 faixas estão “O Pato”, “Desafinado”, “Tim Tim por Tim Tim”, “Você e Eu”, “Eu Sambo Mesmo”.

Na abertura ele canta “Aos Pés da Cruz”, de Marino Pinto e Zé da Zilda. E Gil tem dito que essa música foi um dos estímulos para o novo CD. Ele contou que, em turnê pela Austrália, estava numa aldeia de aborígenes quando de repente se viu dedilhando ao violão a composição de 1942 que João Gilberto gravou com seu estilo em “Chega de Saudade”, seu primeiro LP, em 1959. Aquele momento na Austrália iluminou em Gil a vontade pregressa de gravar um disco de sambas, o que evoluiu na oportunidade de homenagem a esse que é um dos criadores da bossa nova.

O tributo a um mestre ganha também um outro sentido quando Gil se vê cercado em estúdio de novos músicos que dividem com ele a realização de “Gilbertos”. A produção é assinada por Bem Gil, filho de Gil, e Moreno, filho de Caetano Veloso. Os dois também tocam em algumas faixas e além deles nomes como Rodrigo Amarante, Pedro Sá, Domenico (percussão), Nicolas Krassik e Mestrinho. Estes dois últimos, aliás, tocando respectivamente violino e acordeão, tornam “Tim Tim por Tim Tim” um dos pontos altos de “Gilbertos Samba”. Como “discípulos” todos eles trazem arrojo na “cozinha”, para os acordes que adornam a voz de Gil.

Há de se destacar ainda o retorno do compositor a “Eu Vim da Bahia”, de sua própria lavra, que João Gilberto gravou em 1973, e a inédita “Gilbertos”, que sintetiza a proposta do disco, e em um trecho diz: “(...) a cada cem anos um verdadeiro mestre aparece entre nós/ e entre nós alguns que o seguirão ampliando-lhe a voz e violão/ é assim que aparece mestre João e aprendizes professando-lhe a fé...”.

Gil amplia a voz e violão de João e soma isso a sua própria história para vivificar a seu modo uma página única do samba brasileiro.

A passagem da turnê de “Gilbertos Samba” por Belo Horizonte já tem data reservada no Palácio para os dias 6 e 7 de setembro.

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O quê. “Gilbertos Samba”, de Gilberto Gil, gravadora Sony Music, R$ 24,90 em média

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