Um romance de brutalidade

Valter Hugo Mãe lança “Desumanização”, narrativa em que protagonista é única criança de um povoado na Islândia

iG Minas Gerais |

Angolano. Valter Hugo Mãe já conquistou no Brasil o Prêmio Portugal-Telecome de Literatura 2012
AE/ARQUIVO
Angolano. Valter Hugo Mãe já conquistou no Brasil o Prêmio Portugal-Telecome de Literatura 2012

SÃO PAULO. A morte de uma menina de 11 anos deixa a irmã, gêmea, sozinha. “Tudo em meu redor se dividiu pela metade”, diz Halla, a sobrevivente, única criança de um povoado no oeste da Islândia. Narradora de “A Desumanização”, ela é a voz com que Valter Hugo Mãe se aventura nas paisagens e nas gentes de um lugar em que, diz-se no romance, é “preciso estar preparado para a substituição poética das coisas”.

É bem por conta disso que a vida partida da pequena Halla pertencerá a um mundo de ambivalências: a beleza e o horror, o encantado e o terrível, a vida e a morte. E, sobretudo, a linguagem e a bela, mas bruta, natureza.

Não é segredo que o Mãe recorreu às referências de “Gente Independente”, romance do islandês Halldór Laxness (1902-1998), Nobel de Literatura em 1955 e herói nacional do país. Elas começam na epígrafe, uma citação do livro (“um homem não é independente a menos que tenha a coragem de estar sozinho”), e se estendem à narrativa. Como se o estrangeiro se entregasse às indicações de um guia local.

Tanto “A Desumanização” quanto “Gente Independente” contam com uma menina magrinha, um pai que gosta de fazer versos, uma mãe cronicamente doente. Ao redor, gente “sozinha por valentia e casmurrice, e por estupefação”.

Mas se Laxness traduz a dureza da vida na luta teimosa contra a natureza rude, o português procura emprestar outros significados a essa mesma rudeza. Trata-se, como ele já anunciou, de substituir as coisas pela poesia. Que é dura.

Halla engravida aos 12 anos do tolo do povoado; o pai, “um nervoso sonhador”, se entrega à apatia; a mãe, louca de tristeza, autoflagela-se, cortando-se. Dos abismos individuais chega-se à brutalidade do mundo exterior. E vice-versa: a boca escura dos vulcões, o gosto dos tubarões podres, o inóspito das montanhas. Tudo com equivalência nas dores e contentamentos de Halla.

E se é esse jogo de espelhos que dá força ao romance, ele é também responsável pela sua fraqueza: repetido à exaustão, o recurso acaba sendo previsível e, algumas vezes, vazio. Ainda assim, é preciso reconhecer que, ao menos tecnicamente, faz sentido. Na “invenção do que já estava inventado”, as palavras são as únicas que podem dar alguma humanidade à vida, à natureza e à morte.

Seguindo essa lógica inescapável, Valter Hugo Mãe confronta sua prosa com a “rocha tremenda da Islândia”. E faz, como ele diz, sua “esquisita mas sincera” declaração de amor aos magníficos fiordes do oeste islandês.

Valter Hugo Mãe nasceu em Angola, em 1971 e vive em Portugal. Entre seus livros já lançados no Brasil estão: “O Romance de Baltazar Serapião” (Editora 34) e “A Máquina de Fazer Espanhóis” (Cosac Naify). Este último ganhou em 2012 o Prêmio Portugal-Telecom de melhor livro de autor lusófono publicado no Brasil em 2011 nas três categorias do prêmio: conto e crônica, romance e poesia.

Agenda

O quê. “A Desumanização”, de Valter Hugo Mãe, editora Cosac Naify, 224 págs., R$ 34,90

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