Números para o progresso

Levantamento sobre hábitos culturais realizado pelo Sesc aponta baixa adesão dos brasileiros em atividades culturais

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

“Queremos fazer um bom uso dos dados e não criar rótulos ou estereótipos para o brasileiro”, afirma a gerente de Cultura do Departamento Nacional do Sesc, Marcia Costa Rodrigues, sobre o resultado da pesquisa, realizada pela entidade, em parceria com a Fundação Perseu Abramo, que diagnostica hábitos culturais.  

Porém, pesquisas de âmbito nacional como essa inevitavelmente criam, no imaginário do leitor, conceitos gerais sobre o objeto analisado, nesse caso os brasileiros. Segundo os resultados, que levaram em consideração a amostra 2.400 pessoas, entrevistadas em 25 Estados do país, 61% nunca assistiram a uma peça teatral e 89% jamais foram à ópera.

Com o objetivo de ser abrangente, a pesquisa também coletou informações sobre o consumo cultural dentro da casa (pela TV e internet), como as pessoas ficam sabendo das atividades, se produzem algum tipo de arte e o que gostariam de fazer no tempo livre. “Trabalhamos com hábito cultural no sentido mais amplo, como aquilo que constitui a rotina do cidadão, como apreciar a natureza e mesmo a arquitetura das cidades”, diz Marcia.

Com essa perspectiva, os dados também revelam que 15% do total da amostra cantam, 28% têm acesso tanto à TV por assinatura quanto à aberta e apenas 8% gostariam de ir a eventos culturais nos períodos que têm livre ao passo que 51% prefeririam viajar no tempo de folga.

Para Marcia, todos os dados colhidos têm como propósito contribuir para a produção brasileira. “Há dados importantes como o fato de que as pessoas hoje ficam sabendo mais dos eventos pelo ‘boca a boca’ e pela internet do que por matérias impressas. Isso pode ajudar a guiar medidas estratégicas de produtores, por exemplo”, afirma a gerente.

Conclusões como essa vão pautar os seminários que serão realizados em algumas capitais brasileiras, realizados pelo Sesc. A ideia é reunir formadores de opinião e produtores para apresentar dados específicos dos Estados (que ainda não foram divulgados). Em Belo Horizonte, o seminário acontece no dia 14 de maio, no Sesc Palladium.

Análise. Nessa data, o produtor cultural e autor do livro-guia “O Avesso da Cena: Notas sobre Produção e Gestão Cultural”, Romulo Avelar, não estará disponível para participar do encontro. Porém, ele analisou os dados da pesquisa Sesc para esta reportagem. Para o produtor, os eventos têm estado distantes das expectativas das pessoas e, por isso, ter dados sobre o desejo delas por meio de amostras é essencial.

“No Brasil, a gente carece de pesquisas em todas as vertentes culturais que deem parâmetros para que possamos trabalhar com as políticas públicas. Por isso, vejo essa pesquisa como algo da maior importância, sobretudo por tratar diretamente com o público”, opina.

Dessa forma, o estudo do Sesc embasa questões que permeiam o cenário cultural brasileiro. Uma delas diz respeito aos mecanismos de incentivo, especificamente às leis de incentivo, as quais são desprovidas, segundo Romulo, de pesquisas específicas que possam atestar sua real eficácia. “Há uma queixa do setor cultural de que essas leis atendem, prioritariamente, projetos que estão na lógica do mercado, mais ligados ao show business”, afirma. Uma opinião compartilhada por Marcia. “A Lei Rouanet privilegia o que vai gerar marketing cultural e não o que de fato vai representar o povo”, diz a gerente.

Dentro dessa lógica, encontra-se a discussão sobre a efetividade dos projetos gratuitos e com preços populares que, na grande maioria, são subsidiados pelas leis de incentivo nos âmbitos federal, estadual e municipal. “A questão mais recorrente é se essa gratuidade está contribuindo de fato para a democratização para o acesso à cultura ou estamos oferecendo mais para o mesmo”, diz o produtor.

São questões como essa que a pesquisa almeja ajudar a responder. “Queremos descobrir forma de mobilização para jogar a favor da arte”, conclui Marcia.  

Divergentes

Comparação. A Fecomércio-RJ liberou recentemente uma pesquisa também sobre hábitos culturais dos brasileiros. A pesquisa chamou atenção por 35% das pessoas entrevistadas terem declarado que a leitura era a atividade principal. Por outro lado, apenas 15% dos entrevistados da pesquisa do Sesc confirmam terem lido uma obra literária no último ano.

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