Sou eu no meu disco voador

Músico, compositor e produtor mineiro Thiakov lança na web “Impressões”, disco recheado de experimentalismo

iG Minas Gerais | Lucas Buzatti |

Heterogêneo. Novo trabalho de Thiakov tem momentos de psicodelia, rock, pop, folk e muito experimentalismo
Rosceli Vita Silveira
Heterogêneo. Novo trabalho de Thiakov tem momentos de psicodelia, rock, pop, folk e muito experimentalismo

Numa noite de domingo, 6 de abril, internautas foram pegos de surpresa por um petardo da música contemporânea mineira. “Pra começar a semana, meu novo disco”, publicou Thiakov, despretensiosamente, em seu perfil no Facebook. O link levava às 12 músicas de seu segundo álbum, “Impressões”, disponíveis para audição e download no SoundCloud.  

Ao soltar o novo trabalho “na calada”, o músico, compositor e produtor mineiro Thiago Souza Mundim, 31, não esperava o retorno quase instantâneo da audiência: em dois dias, foram mais de 1.500 visualizações. “Muita gente me ligou e mandou mensagem, elogiando o disco. É aquele momento da troca, quando você percebe que o seu trabalho atingiu alguém. É lindo demais”, comemora.

De fato, é difícil ficar indiferente ao álbum. A sonoridade incomum – que mescla psicodelia, rock, pop, folk, brasilidades e experimentações eletrônicas – somada às particularidades técnicas e sentimentais da produção despertam curiosidade. “Gravei e produzi tudo no meu quarto, com meus equipamentos, em quatro meses. Eu, sozinho, no meu disco voador. O disco é um desabafo, um impulso meu”, revela o “one man band”, que assina quase todas as letras.

“Impressões” tem uma espécie de alternância conceitual. Canções como “3am” e “Estradar” possuem atmosfera matinal e lisérgica, que se contrapõem à densidade de músicas como “We Find The Tune” e “Eu Sou Você”. “Parece uma coletânea. São diferentes momentos e estilos. Mas todas músicas curtas, sem refrão, muito experimentais”, explica.

O tom de desabafo pode ser percebido em letras como “O Adeus”, que canta a dor e o alívio do fim de um relacionamento: “O adeus /cada um para o seu norte / o amor / que era cada vez mais forte / se deu / como quem se joga à vida / morreu / de tanto procurar saída”.

Para Thiakov, lidar com o término de uma relação amorosa foi o combustível emocional do disco. “Eu precisava retomar a vida, me apoiar em algo que fizesse bem. E produzir é o que amo fazer. Foi um prazer artístico muito grande e um grande alívio”, conta o artista, que já produziu discos de Graveola E O Lixo Polifônico, Laura Lopes, Dead Lovers, entre outros.

Contudo, se engana quem pensa que a feitura das canções foi sentimentalmente fácil de lidar. “Era eu no meu quarto, chorando e tocando, às cinco da manhã. Quando você está imbuído de sensações, se a música é de sofrimento, você realmente sofre”.

Sobre a qualidade técnica da gravação, Thiakov afirma ter optado por uma estética crua e áspera. “Tem ruídos, vocais desafinados. Poderia ter tratado mais os áudios, mas escolhi assim. Uma obra inacabada”.

Para a compositora e atriz Brisa Marques, coautora de duas canções do álbum, “Thiakov criou a obra por desejo, por necessidade, porque é um artista, e arte é vida”. “Até as minhas letras acompanharam a personalidade dele. Nem parece que fui eu que escrevi”, brinca Brisa.

Enquanto o som tem influências de Thom Yorke, Björk e Mutantes, as letras bebem da fonte de livros como “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, e de pinturas impressionistas de artistas como o holandês Van Gogh.

“O disco é impressionista. As letras passam mais sensações que mensagens”, pontua Thiakov, ressaltando o caráter pessoal da obra. “Não são músicas para dançar. São músicas feitas por mim, para mim. E o engraçado é que isso humaniza a arte, acaba tocando ainda mais as pessoas. Faz com que elas se identifiquem de alguma forma com os sentimentos ali expostos”.

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