Suco e figurinhas

iG Minas Gerais |

Hélvio
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Li na quarta-feira passada, aqui em O TEMPO, a coluna do jornalista político Elio Gaspari, em que ele define os marqueteiros como uma nova modalidade de astrólogos. Não é o caso aqui de entrar em detalhes sobre o tema da coluna dele. A comparação entre as duas profissões basta para tomarmos um outro rumo de conversa que me aflige, os excessos do marketing.

Não sou especialista do assunto nem tenho nada contra quem faz essa opção de trabalho. Conheço muitos profissionais de marketing com os quais tenho bom relacionamento, mas, como um consumidor-alvo, me incomoda o ataque incessante de campanhas de assédio, a profusão de ações de conquista do “cliente” por todos os lados, a briga pela ocupação de todos os campos visuais com logomarcas; bombardeiros de poluição na paisagem urbana, nos telefones, móveis ou fixos, na internet. Os novos astrólogos a que se refere Gaspari são os di$putados marqueteiros que projetam os passos dos candidatos políticos: o que eles devem falar, como se vestir, se comportar, com quem conversar, que acordos fechar; enfim, as estratégias para ganhar. Os eleitores são, em tese, peças passíveis de manipulação. Acontece que apenas alguns vencem, embora todos tenham seus mentores de marketing, e aí a culpa, como na astrologia, fica para os astros que não conspiraram a favor, ou seja, fatos externos que impediram a vitória. É algo próximo também da meteorologia. Por mais que os recursos tecnológicos, com a maior precisão dos satélites, venham reduzindo a margem de erro, as previsões de tempo nem sempre se confirmam e os erros são atribuídos a alterações climáticas. O marketing comercial em linhas gerais parece querer vencer seu alvo pelo cansaço. Os “novos astrólogos” orientam os empresários: “direcione seu produto para tais faixas da população, execute uma campanha dessa forma, utilize tais mídias, faça essas promoções etc.”. E parecem subestimar a inteligência do consumidor. Um exemplo aparentemente banal ocorrido nesses dias é o do álbum de figurinhas das seleções mundiais lançado no Brasil pela editora Panini e anunciado como o oficial da Fifa para a Copa do Mundo no Brasil. Com razão, colecionadores ficaram indignados porque algumas figurinhas (cromos) são apenas imagens de patrocinadores da Copa do Mundo. Em entrevista à imprensa, um colecionador disse que isso era uma apelação e que estragaram o álbum da Copa. (Parênteses para registrar um fato curioso e engraçado em relação a esse álbum. O jogador da seleção da Costa Rica Joel Campbell comprou 500 figurinhas, ou cem envelopes, com o desejo de encontrar o cromo dele, mas não deu sorte, haha). Os torcedores revoltosos com as marcas de empresas nas figurinhas são uma parte dos consumidores conscientes, dos que desconfiam das previsões, dos que estão cansados dos excessos do marketing. Outro dia, em um supermercado, dentre dezenas de caixas de sucos cheias de mensagens e cores, um grupo delas que eu não conhecia se diferenciava na embalagem por trazer tons monocromáticos com apenas com desenhos relativos ao respectivo sabor, e abaixo, um pequeno texto, que em um trecho diz: “suco feito por jovens cansados da mesmice”. Sem mais detalhes, porque não vou fazer marketing, haha. Mas por que esse grupo de bebidas se diferenciou entre tantos? O que se entende desse cansaço da mesmice é muito claro. E se astrólogos ficarem chateados por serem comparados com os chamados “marqueteiros”, eles têm razão. Há de cara uma diferença essencial. Os astrólogos olham para o céu. De mais a mais, o Gaspari também distinguiu a questão, referindo-se a “uma nova modalidade”.

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