Para afastar a violência, escolas se aproximam das comunidades

Enquanto algumas investem em aparelhos de segurança, outras abrem suas portas à população

iG Minas Gerais | Luiza Muzzi |

Trabalho. Escola Ephigênia de Jesus Werneck desenvolve com seus alunos o projeto Semeando a Paz
Trabalho. Escola Ephigênia de Jesus Werneck desenvolve com seus alunos o projeto Semeando a Paz

Motivo de desassossego e de alerta em todo o país, a criminalidade também tem invadido as salas de aula de forma preocupante. Em Minas, apenas nos dois primeiros meses deste ano, foram registradas 1.027 ocorrências de furtos e roubos em escolas e universidades públicas e particulares – uma média de 17,4 por dia –, segundo dados da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds). Assustados com tanta violência, educadores têm buscado soluções diferentes para enfrentá-la. Enquanto algumas instituições se transformam em fortalezas, cercadas por muros altos, arames farpados e câmeras, outras optam por uma estratégia oposta: abrir as portas para se aproximar da comunidade.

É o caso da Escola Estadual Dr. José Maria Lobato, em Oliveira, na região Centro-Oeste de Minas, que, em vez de muros, optou por flores. Após uma série de invasões em 2007 e em 2008, quando furtos de computadores e televisões eram frequentes, o local hoje colhe os frutos da mudança. “Tínhamos muitos problemas com invasões, e a Secretaria de Educação queria construir muros ao redor da escola, que sempre foi rodeada por telas. Mas não deixamos. Muro dá um sentimento de prisão, e escola não é para isso”, disse a diretora, Ana Maria Brant. “Foi quando começamos a plantar uma vegetação espaçada, circundando a escola. Nosso prédio é bonito, não é para ficar escondido. E o público de fora tem que ver o que acontece aqui dentro. Faz parte da proteção essa visibilidade”. Aluno do 8º ano, Eduardo Michalsky, 14, aprovou as mudanças. “Hoje, a escola tem um ambiente tranquilo”, contou. Para a diretora, se abrir foi a escolha certa. “Agora, nem preciso me preocupar, porque já viramos uma rede. Todo mundo protege todo mundo”. A alguns quilômetros dali, a Escola Estadual Ephigênia de Jesus Werneck, em Santa Luzia, na região metropolitana da capital, também adotou a estratégia da aproximação. Em julho de 2013, um aluno entrou armado na escola e atirou em dois colegas. Dois meses antes, uma briga entre estudantes e um professor resultou na apreensão de cinco adolescentes. Hoje, o cenário é outro. “Foi um ano complicado. Mas depois que passou o trauma, trabalhamos muito com o diálogo e com uma rede de parcerias”, explicou a diretora, Maria de Fátima Torres. O colégio desenvolveu o projeto Semeando a Paz, com trabalhos interdisciplinares, filmes, passeios, palestras, passeatas e uma série de debates com os pais. A quadra também começou a ser emprestada para partidas de futebol, com a condição de os frequentadores cuidarem do espaço. “Trabalhamos tentando fazer com que alunos e comunidade entendessem que a escola é deles”.

Em Contagem, prédios têm segurança reforçada Enquanto algumas escolas abrem as portas, a rede municipal de ensino de Contagem, na região metropolitana, tenta se blindar. Após uma série de arrombamentos, vandalismos e tráfico de drogas em 2013, que levaram inclusive ao fechamento temporário de algumas delas, a Secretaria Municipal de Educação realizou intervenções. Segundo a prefeitura, a vigilância noturna foi reforçada e todos os 120 prédios estão recebendo cercas concertinas (arame farpado em formato espiral) e um sistema com 685 câmeras, 137 alarmes e mais de mil sensores, vigiados 24 horas. Para especialistas, porém, as ações precisam ser equilibradas. “A escola tem que manter um certo aparato, mas também não pode se isolar”, defendeu o cientista político Guaracy Mingardi.

Balanço Crimes. Somente a região metropolitana registrou 260 furtos e roubos em escolas no primeiro bimestre deste ano – uma média de 4,4 ocorrências por dia –, de acordo com a Seds.

Saiba mais - Universo. Minas tem hoje 17 mil instituições de ensino estaduais, municipais e particulares, com 5,5 milhões de alunos. - Prevenção. A Polícia Militar (PM) desenvolve, além do patrulhamento escolar, o Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd) em 480 municípios mineiros. São cerca de 3.200 escolas atendidas por ano.

 

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