“Fico surpreendida com gente que sabe falas que já esqueci”

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Medeiros e a “barriguinha” da romântica Fabienne
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Medeiros e a “barriguinha” da romântica Fabienne

A atriz portuguesa Maria de Medeiros conheceu Quentin Tarantino no início dos anos 1990, em um pequeno festival de cinema independente em Avignon, onde o diretor estava apresentando “Cães de Aluguel”. Pouco depois, eles se esbarrariam de novo, desta vez na Mostra de Cinema de São Paulo. “Ele me pareceu um cara super cinéfilo, e lembro que fomos ver um montão de filmes que nunca teria visto sem ele”, ela recorda.  

A amizade resultou no convite que chegaria alguns anos mais tarde, na forma do roteiro de “Pulp Fiction”, em que ela viria a interpretar a inocente Fabienne. As primeiras impressões de que a atriz se lembra foram deixadas pela clássica cena do “royale with cheese”.

Ela conta: “O roteiro e aqueles diálogos me lembraram muito das viagens que eu vinha fazendo pela Europa naquela época, o tipo de conversa e as pessoas que eu encontrava” (o que não é por acaso, já que Tarantino escreveu o filme durante uma viagem a Amsterdã).

Contudo, o que mais marcou Medeiros, que ainda não tinha 30 anos, no processo todo foi a importância dada pelo cineasta aos ensaios. “Eu viajei da Europa para Los Angeles duas vezes. Uma delas só para ensaiar nos cenários já construídos, que é uma coisa que ninguém faz porque é muito caro”, ela comenta. Segundo a portuguesa, a escrita literária dos roteiros do diretor é muito elogiada, mas muitas vezes se esquece a mise-en-scène. “A escrita cinematográfica do Quentin também é muito precisa, por isso o ensaio serve ao mesmo tempo como uma coreografia para nós e uma decupagem pra ele”, analisa.

Dos sets, a atriz se lembra apenas de que foi uma das filmagens mais divertidas de que fez parte. “Muitas vezes, eu tinha a sensação de que nós atores éramos espectadores do espetáculo dele, sempre tão engraçado, tão vivo”, brinca. A experiência era tão única que Medeiros ficava no set para a filmagem de outras cenas com “câmeras cobertas de plástico porque havia ‘sangue’ por todo lado”, ri.

Vinte anos depois, a atriz comenta que todos os atores sabiam estar fazendo algo especial. Mas ela especialmente – que sempre trabalhou em projetos independentes que quase nunca chegam ao público – não sabia como as pessoas receberiam o longa, com sua cronologia radical desafiando a lógica do espectador. “Ainda fico surpreendida com gente que vem até mim e sabe o filme de cór, falando minhas falas que eu já esqueci. Acontece regularmente”, diverte-se.

Para ela, isso se deve ao fato de Tarantino ser um grande humanista. A atriz defende que os blockbusters hollywoodianos, em que milhares de figurantes morrem e o espectador só se importa com os protagonistas, criam uma certa indiferença. Já Tarantino nunca mata figurantes. “Todos os atores têm diálogos extraordinários que nos fazem gostar deles, achar-lhes graça, nos importar com eles”, afirma. Isso cria uma relação do público com o personagem.

“Daí, não precisa de centenas. Basta um, que ele está matando e você tem simpatia por ele. Por isso, fala-se muito da violência nos filmes do Quentin. Não porque ela seja maior, mas porque é muito mais rica, curiosa e tem uma comunicação muito mais forte conosco. É o gênio dele como escritor”, opina.

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