Convite ao abismo existencial

Stélio Lage Psiquiatra, psicanalista e doutor em filosofia

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Arquivo pessoal
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Doutor em Filosofia pela Universidade Complutense de Madrid, o psicanalista Stélio Lage profere terça, às 19h, a palestra “Face a Face com Bergman”, na mostra “Instante e Eternidade” do Cine Humberto Mauro. Abaixo, ele analisa a complexa teia teórica do cinema de Ingmar Bergman e refuta a ideia de que suas implicações psicanalíticas venham de traumas pessoais do diretor. 

Qual foi o seu primeiro contato com a obra do Bergman e qual foi a reação inicial que ela lhe despertou?

Foi na década de 1970, no inesquecível Cine Pathé, na Savassi. “Gritos e Sussurros” foi surpreendente. Havia ali algo inusitado, bastante inquietante e provocador. As cenas e diálogos daquele quarteto de mulheres deu-me, dava e ainda daria o que pensar. Logo após a estreia, entrevistado sobre o papel das quatro mulheres no filme, Bergman declarou prontamente: “elas representam as facetas da minha mãe”. Posteriormente, numa entrevista em sua residência na ilha de Faro, ele retomará aquela sua súbita resposta afirmando, então, que só dissera aquilo por nem ter mesmo nada a falar; o que muito lhe divertira, pois aquilo teria sido suficiente para causar os mais variados comentários e considerações. É preciso lembrar que naquela década, ele já conquistara reconhecimento internacional, e todos os seus filmes despertavam grande interesse e altíssima repercussão. Bergman já havia consolidado seu estilo com uma abordagem inédita dos problemas fundamentais da existência humana. As fortes implicações psicanalíticas da obra do Bergman vêm do fato de ele processar questões e traumas pessoais em suas histórias, ou da forma como ele constrói essas histórias na tela e no palco?

Em sua auto biografia, Bergman declarou nunca ter dado lugar, em sua obra, às suas próprias complicações, exceto como chaves para revelar os segredos do texto em seu trabalho criativo. Os conflitos, a convivência, a angústia, o medo, a morte e a solidão tão contemplados por ele revelam, sobretudo, uma singular e criativa aplicação sistemática de alguns princípios herdados da filosofia do norueguês Kierkegaard que, certamente, muito o influenciou. Estes princípios, contraditória e paradoxalmente, foram conjugados com os pensamentos de Hegel, Heidegger, Freud e Nietzsche para, então, serem aplicados numa dramaturgia pós-moderna que parte de Strindberg e acolhe em seu bojo Shakespeare, Ibsen, Kafka, Mozart e Bach, entre outros, compondo assim um campo muito mais vasto e amplo que a microscópica egolatria do próprio Bergman. Nesse sentido, distinta duma vitrine simplória e banal de uma autocatarse, sua obra configura um conjunto de elaborações sobre a existência humana, disposto como um convite e convocação do espectador a um voltar-se para si mesmo e a uma corajosa interrogação a respeito das nossas questões fundamentais. E como esse convite se dá na linguagem cinematográfica dele?

Ousarei afirmar que ninguém permanece incólume ou impassível às produções de Bergman. Acho até um pouco hilário o fato de alguns espectadores abandonarem subitamente a exibição de seus filmes, antes mesmo do final: sinal evidente do desconforto que sua obra sempre foi capaz de suscitar. Até a dimensão de entretenimento dos seus filmes conduz-nos ao questionamento do que seja a verdadeira arte, do seu papel e da sua função. A arte como beleza, provocação, gesto inconforme, surpresa e espanto, reflexão – tudo isso exala em suas múltiplas, exaustivas e incansáveis produções – espécies de arapucas subjetivas que, ao nos capturarem, conduzem-nos à catarse e expiação. Quais as principais influências, seja do campo teórico, da psicanálise, ou mesmo artísticas, que o sr. aponta na obra do Bergman e que constroem a teia e a densidade temática dos filmes dele?

Bergman foi sensível às múltiplas influências presentes em sua época e, também, muito susceptível a várias referências teológicas, literárias, teóricas e filosóficas. Claro que ele incorporou em sua obra as descobertas de Freud. A dimensão íntima dos diálogos, quase onipresente em seus filmes e peças teatrais, revela a relevância dada por ele aos conflitos e dramas da existência humana. Em toda sua produção, destaca-se um tom de provocação, como um chamado da atenção do espectador para questões fundamentais que povoam nossa vida: os devaneios, os sonhos, as lembranças, a solidão, o sofrimento, a morte e, por que não, o amor e desvarios da paixão. Qual o sr. apontaria como sendo o principal tema da obra dele?

A condição humana e seu absurdo, evidenciados quando interrogamos o sentido de existirmos.

Do ponto de vista psicanalítico, em que medida trabalhar ou revisitar questões, problemas e traumas em uma obra de arte pode ajudar seu criador a lidar, ou mesmo, superar essas questões? É possível ou correto falar em algum grau de ‘resolução’?

Freud, em diversos textos, empenhou-se na análise do ato criativo, investigando-o e situando-o em sua relação fundamental com a subjetividade. Ele forjou um conceito, a sublimação, e a partir dele analisou o processo pelo qual o artista trata o Real, trazendo à tona elementos profundamente reprimidos e ligados às nossas fantasias inconscientes. Todavia, isto não significa que, através do seu gesto, o artista busque alcançar, fundamentalmente, um domínio, controle ou superação dos seus conflitos pessoais, tratando suas criações como meros instrumentos pragmáticos para a sua própria resolução. Bergman parece exemplar nisso, já que suas lembranças, sonhos e imaginações apresentam-se destacados e recorrentes em quase todas as suas criações. Entretanto, quando analisamos o conjunto da sua obra, o que realmente verificamos é uma espécie de desenvolvimento autônomo das inúmeras questões tratadas por ele. Os traumas e conflitos advindos da sua própria experiência são tomados como as demais referências das quais ele parte: como matéria bruta que irá lapidar com sua arte e seu estilo genial.

Bergman demonstrou uma grande curiosidade, e em certa medida um grande conhecimento, de questões profundas e existenciais inerentes à natureza humana. Ao mesmo tempo, ele teve uma vida bastante conturbada, com vários casamentos, traições e relações distanciadas com os filhos. Como a psicanálise enxerga esse contraste entre arte e vida na psique de um indivíduo?

De certa forma, os relatos sobre sua biografia parecem mesmo conduzir-nos à suposição de que Bergman teve uma vida conturbada. Mas levemos em conta que na Escandinávia, desde o final da Segunda Guerra, já vinha ocorrendo uma grande mudança liberal quanto aos valores estabelecidos e os costumes rígidos e conservadores. Por outro lado, essa identificação massagada entre os dados biográficos do autor e a sua obra deve ser questionada. Senão, deveríamos descartar da boa atuação no campo plástico quem quer que ali se apresente portando qualquer deformidade estética, mesmo um descaso pela própria imagem, ou até por portar uma aparência despojada de qualquer esplendor. E o sr. vê hoje outros cineastas que trabalhem, no mesmo nível de profundidade e complexidade, as questões existenciais e psicanalíticas que interessavam a Bergman?

Claro que a obra de Bergman influenciou, e ainda influencia, muitos diretores. Citarei apenas dois: Woody Allen e Lars von Trier. São bons exemplos, pois cada um enveredou nesta via de questionamentos sobre os conflitos e problemas da existência, mas a partir de perspectivas bem diferenciadas. Enquanto o primeiro ainda detém-se sobre o sentido da vida, o segundo aborda tais temas libertos das tentativas de buscar e guarnecer qualquer compreensão.

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