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Exposição “Elas, Madalenas”, de Lucas Ávila, apresenta fotografias de pessoas que transgridem as fronteiras de gênero, no Memorial Minas Gerais Vale

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Situações. Imagens percorrem momentos que oscilam entre a convivência em casa e em espaços de trabalho
Lucas Avila
Situações. Imagens percorrem momentos que oscilam entre a convivência em casa e em espaços de trabalho

Em vez de corpos apertados em vestidos sensuais ou rostos super maquiados, esbanjando cores brilhantes, as fotos da exposição “Elas, Madalenas” fogem dos clichês que rondam o universo de travestis, transexuais, transformistas, transgêneros e drag queens. Em cartaz no Memorial Minas Gerais Vale, localizado na praça da Liberdade, a mostra do jornalista e fotógrafo Lucas Ávila evita a caricatura justamente para se chegar mais perto da vida cotidiana daqueles cujo comportamento é negado pela sociedade.

Residentes em Belo Horizonte, todos aparecem em situações corriqueiras, como ao lado do bicho de estimação, em casa, ou no trabalho, atuando como professora de tênis. O resultado é um panorama que aponta outros aspectos da rotina de cada uma dessas pessoas, revelando, assim, uma tentativa de deslocá-los do contexto de marginalidade ao qual são injustamente fixados.

“Minha ideia foi ressaltar como essas pessoas têm um dia a dia normal como qualquer outro ser humano, com seus problemas, tarefas e trabalhos individuais, que não estão apenas ligados às ruas, à noite e à prostituição”, afirma Lucas Ávila.

Para produzir os retratos que apresenta, ele conta ter demorado cerca de três anos. Nesse período, conheceu 45 personagens que após clicados geraram um acervo de 3.000 fotografias. Do conjunto, a curadora Amanda Alves selecionou 20, entre as quais dez estão exibidas em totens colocados nas escadarias do museu. O restante foi impresso em formato pop-card e está disponível ao público sobre uma penteadeira.

A proposta de levar esse trabalho para um espaço nobre e com grande volume de visitantes, de acordo com Ávila, contribui para o objetivo de combater o preconceito contra aqueles que transgridem as fronteiras de gênero. “Eu quis que essas imagens fossem vistas por um público amplo e que realmente precisa mudar a sua visão diante dessa realidade. O trabalho no museu pode ter um alcance maior, por exemplo, do que se ele estivesse exposto no ambiente de uma universidade”, pontua o fotógrafo.

Etapas. O caminho até a realização desse projeto, no entanto, não foi tão simples. Ávila diz que antes de conseguir viabilizar a proposta por meio de uma campanha de “crowdfunding”, lançada na internet, arrecadando doações de apoiadores, ele tentou produzir o ensaio via leis de incentivo ou com patrocínio de empresas. Mas com nenhuma das duas opções obteve sucesso.

“Só com o uso de ‘crowdfunding’ eu consegui levar o trabalho a diante. Eu achei interessante que, além dos amigos e simpatizantes pela ideia, eu também tive ajuda de algumas escolas particulares que estão mais antenadas com a necessidade de se discutir essa questão, defendendo o respeito à diversidade sexual”, conta ele.

Assim que colocou o mecanismo de arrecadação virtual no ar, Ávila disse que o processo foi rápido. Em apenas cinco dias dos 25 que tinha calculado, ele bateu a meta de R$ 6.500.

“Até o fim do processo eu consegui a soma de R$ 14 mil, ou seja, mais do que o dobro. Com isso consegui melhorar a impressão das imagens e fazer o programa da exposição com todas as fotos. Ainda consegui separar parte do dinheiro para fazer uma doação à Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), que possui representantes em todos os Estados do país”, diz o realizador.

Percepções. Fruto de uma curiosidade particular, a mostra, segundo Ávila, descortinou nuances da vida dessas pessoas que até ele mesmo não conhecia. As estratégias de sobrevivência empregadas pelas travestis são uma delas.

“Eu conheci, por exemplo, Anyky Lima, uma travesti de 59 anos que cumpre quase o papel de mãe para várias delas. Ela mantém uma pensão onde vivem entre 15 e 20 pessoas. Quando alguma delas adoece, é Anyky que dá apoio. A maneira como ela abre espaço para as travestis também é importante porque raramente elas conseguem arcar com as despesas de um aluguel sozinhas”, relata.

Aos poucos, uma personagem foi levando a outra e à medida que conquistava confiança o fotógrafo dava um passo a mais na rotina de suas retratadas. Ao fim desse processo, lhe chamou atenção os dilemas ainda enfrentados por elas, que lutam pela garantia de acesso a direitos básicos, como saúde, educação e emprego.

“A expectativa de vida de uma travesti, em média, é de 35 a 40 anos. Isso significa a mesma marca atingida pela população mundial que vivia em 1850. Porém, nós estamos falando de hoje e é um absurdo como ainda em 2014 grande parte dessas pessoas não consegue passar dos 40 anos. Elas passam por um processo de negação e de vários tipos de violência desde quando a assumem a sua identidade de gênero, o que ocorre ainda na infância”, reflete Ávila. “Se eu puder mudar a visão de uma ou duas pessoas para a percepção disso já estou satisfeito”, conclui o jornalista.

Saiba mais

Quem visitar a exposição vai encontrar disponível, além de fotos em pop-cards, que saíram com tiragem de 8.000 exemplares, o programa com textos da atriz, diretora e dramaturga Grace Passô. De acordo com Lucas Ávila, a artista compôs pequenos poemas para as imagens da mostra, todas impressas também nesse material gráfico.  

Agenda

O quê. Mostra “Elas, Madalenas”

Quando. Até 29/4; 3ª, 4ª, 6ª e sáb., das 10h às 17h30; 5ª, das 10h às 21h30; dom., das 10h às 15h30

Onde. Memorial Minas Gerais Vale (praça da Liberdade)

Quanto. Entrada franca

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