É culpa da natureza, estúpido! – O ladrão de galinhas

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Um dos maiores generais que existiram, César foi também um dos maiores canalhas de todas as épocas
Intervenção sobre estátua de Júlio César (Nicolas Coustou, 1696)
Um dos maiores generais que existiram, César foi também um dos maiores canalhas de todas as épocas

O historiador Eric Hobsbawm morreu em 2012, com 95 anos. Polêmico e contestador, suas obras sobre cultura são definitivas. Engraçado e irônico, não tinha papas na língua, criticando seus anfitriões em seminários mesmo sendo o convidado principal. Referindo-se à música erudita, dizia não existirem mais de 200 obras sobreviventes, tocadas exaustivamente para um público de no máximo 20 mil pessoas em Nova York, formado de senhoras e senhores sérios e compenetrados. A mesma situação valeria para o resto do mundo. Das artes plásticas pouco mais restou. A música erudita durou 400 anos (morrendo como atividade criativa na primeira metade do século XX), enquanto pintura e escultura surgiram antes de Cristo e agonizam desde as últimas décadas do século passado. Haverá 200 pintores e escultores que mereçam ser vistos e revistos? Duvido. A boa literatura de ficção está morta ou, na melhor das hipóteses, respirando por aparelhos. Quantos autores resistiram ao tempo? 200, se tanto, pensando como Hobsbawn. Um desses sobreviventes é Balzac. CRIME CONTINUADO Saiu esta semana neste jornal uma matéria sobre certo cidadão chamado Afanásio, que tentou furtar um galo e uma galinha, avaliados em R$40,00. O caso chegou ao STF depois de percorrer todas as instâncias e continua rendendo. “Ao analisar o caso [reproduzo d’O TEMPO], o ministro Luiz Fux decidiu aguardar o julgamento do mérito do pedido para decidir a questão definitivamente. ‘A causa de pedir a medida liminar se confunde com o mérito da impetração, porquanto ambos referem-se à aplicabilidade, ou não, do princípio da insignificância no caso sub examine. Destarte, é recomendável que seja, desde logo, colhida a manifestação do Ministério Público Federal’, decidiu Fux”. O ministro é cego ou não quer ver? Que a linguagem é de um pedantismo irritante está claro. Mas todo ministro escreve assim, mesmo porque só devem ter lido códigos, esquecidos de que o mundo gira e que a grande literatura ensina, além de destrinchar a vida, a escrever bem. Ao ler a matéria, lembrei caso antigo, estudado na faculdade, em que outro Afanásio furtou, durante 40 semanas, 40 galinhas no galinheiro do vizinho. A questão era a seguinte: quantos crimes foram cometidos? Se apenas um, continuado, a pena seria de No máximo quatro anos. Se crimes isolados, poderia alcançar quatro x 40 = 160 anos. Assim se constrói a lei. O MUNDO GIRA Não é por acaso que Marx idolatrava Balzac. Em seus livros, escritos na primeira metade do século XIX, o romancista, fascinado pela sujeira que descobrira debaixo do tapete social, exibe toda a mesquinharia e toda a podridão da sociedade francesa. Foi deles que Marx recortou boa parte de suas ideias sobre o capitalismo. Por exemplo: “Os ricos jamais foram postos na prisão por dívidas. Não me parece que o senhor seja forte em história. Porque há duas histórias [dizia um erudito jesuíta ao jovem Lucien Chardon em ‘Ilusões Perdidas’]: a história oficial, mentirosa, e a história secreta, onde estão as verdadeiras causas dos acontecimentos, uma história vergonhosa.” Mais uma pérola atirada aos porcos (nós, leitores): “Atualmente, o sucesso é a razão suprema de todas as ações, quaisquer que sejam elas [Escrito em 1838!.] Os grandes homens cometem tantas covardias quanto os miseráveis, mas eles as cometem na sombra e ostentam apenas as virtudes. Os pequenos exercem as virtudes na sombra, e expõem suas misérias à luz do dia: são então desprezados”. CÓDIGO CIVIL “Os inimigos da ordem social aproveitam-se para enviar às galés um ladrão de galinhas, enquanto aprisionam por alguns meses apenas um homem que arruína diversas famílias abrindo falência fraudulenta. (...) Ao condenar o ladrão, os juízes mantêm a barreira entre pobres e ricos, pois se essa barreira fosse derrubada seria o fim da ordem social. Ao passo que o caloteiro, o hábil captador de heranças ou o banqueiro que arruína um negócio em seu proveito, não produzem senão deslocamentos de fortuna. Tal é a religião de sua Constituição, que nada mais considera na política senão a propriedade”. Se nossos legisladores, do juiz que primeiro julgou Afanásio até Luiz Fux, do STF, tivessem lido Balzac e não apenas os códigos obrigatórios de sua profissão, muito teriam aprendido. E não aprenderiam só a escrever bem, mas também a legislar melhor. CÓDIGO ILEGAL Continua Balzac, pela voz do jesuíta erudito, doutrinando o jovem Lucien: “O senhor nada tem, encontra-se na mesma situação dos Médici, de Richelieu, de Napoleão no início de suas ambições. Essas pessoas, minha criança, avaliaram seu futuro ao preço da ingratidão, da traição e das mais violentas contradições. É preciso tudo ousar para tudo ter”. Ele também cita o romano Júlio César, mas não encontrei a passagem. Um sociólogo importante, Thorstein Veblen, escreveu no final do século XIX em sua “Teoria da Classe Ociosa”: “Em qualquer fase cultural conhecida, os dons de bondade, equidade e compaixão não favorecem de modo apreciável a vida do indivíduo. Pode-se dizer que a carência de escrúpulos, de piedade, de honestidade e de apego à vida contribui para aumentar o êxito do indivíduo na cultura pecuniária. [Hoje escreveria: no capitalismo.] Os homens que tiveram maior êxito em todas as épocas têm sido desse tipo”. ESPERNEAR É PRECISO Veja você. Citei apenas textos velhos, velhíssimos. Uma das vantagens da velhice, se existe alguma, é acumular conhecimentos antigos e poder passear pela história com olhos limpos. Não apenas a história escrita, mas a história vivida. A constatação primária é de que nada muda, senão muito lentamente, sendo preciso muita porrada para avançar um centímetro social, um milímetro legal. A natureza não tem nada com isso, exceto a culpa de ter criado o mais predador de todos os animais. Como nada tenho de melhor a fazer, continuarei esperneando.

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