Medo do futuro e ideias de ruína

iG Minas Gerais |

Que saudade do tempo dos avós, quando o mundo andava a passos lentos, havia tempo para tudo e o que sobrava ainda virava uma boa sesta. E como era bom ouvir os conselhos proverbiais: “O futuro a Deus pertence!”, ou ainda: “As melhores soluções estão no dia de amanhã”. Em tempos atuais, viver é algo raro. A cada dia, sobrevivemos a trabalhos que, em geral, são pouco gratificantes (no sentido lato dessa palavra), a um ambiente hostil, seja no trânsito, na violência urbana ou nos convívios familiar e social. Mas vamos tocando a vida, numa rotina descolorida, desestimulante, na qual fim de semana são esperados ansiosamente e os feriados causam uma ressaca brutal para nos colocar novamente na linha de produção. Se este é o tempo presente, inodoro e pasteurizado, se o passado, quando vem a mente, é muitas vezes torturante em culpas, arrependimentos, angústias e perdas, que tal o futuro? Benditos os que sonham, fantasiam, projetam grandes planos, conquistas, avanços. Principalmente se esses arquitetos de um novo mundo tiverem a capacidade de incluir a imensa população que vagueia sem rumo, nas periferias dos grandes centros, países periféricos, à margem das modernidades e do conforto, cada vez mais exclusivo de menos gente. Como torcemos para olhar o horizonte e ver uma nova liderança na faixa dos 40 anos, com vida digna e capacidade de assumir seu papel. Ou ver novamente movimentos espontâneos, como no Brasil do ano passado, nos países árabes, contra Wall Street. Sopros de esperança que levam sementes aos quatro cantos. Mas, quando vejo um artigo no jornal “The Independent”, no qual o matemático Safa Motesharri mostra modelos parecidos com o que ocorreu com as civilizações de Roma, Gupta (na Índia) e Han (na China), alerta sobre um colapso alarmante da humanidade atual, em virtude da instabilidade econômica e do esgotamento dos recursos naturais, dá arrepio. Mas daí a desenvolver quase uma fobia do futuro, projetar ruínas, não desejar ter filhos, se radicalizar em seitas, deprimir-se entre outras “pensações” negativas , vai um exagero que pode significar um distúrbio em que a mente distorce os fatos sempre para o negativo, com um pessimismo irreal e quase delirante. Aliás, existe uma descrição clara na psicopatologia: delírios de ruína, em que o indivíduo se vê pobre, falido, desamparado, sem solução, mesmo que familiares e amigos tentem provar o contrário (e não adianta, pois delirar é criar uma realidade própria e distorcida, na qual não há lógica ou racionalismo). Tenho testemunhado pais e avós apavorados com os tempos modernos e com o que será de seus descendentes. E nunca se escutou tanto que é o fim do mundo. De fato, o modelo democrático não é tão democrático assim (deveria vir do povo e para o povo), mas tem servido a interesses partidários e individuais, numa corrupção terminal, que a crença da população em qualquer partido ou líder é quase nula. O modelo capitalista igualmente, afinal, o dizer quando 67 pessoas mais ricas do mundo têm mais renda que 1 bilhão de pessoas? Algo está definitivamente fora do eixo. Então, nesse horizonte nublado e tempestuoso que se avizinha, o que pode cada um de nós, insignificantes como indivíduos, fazer? Sendo justo com aquilo que descrevi acima, àqueles indivíduos que se identificaram como portadores dessa fobia do futuro, ideias de ruína; aconselho, de coração, a buscar ajuda e tratar-se, pois tais disfunções são reversíveis. Quanto aos angustiados com tantas transformações e degradações nessa sociedade tipo “anarquista ou Black Bloc” (afinal, todos nós andamos agressivos, destrutivos, desejando que o pau quebre para ver se alguém acorda), é chegada a hora de sermos revolucionários. Primeiro, dentro de cada um de nós, ao resgatarmos o mínimo de civilidade, cidadania, altruísmo, cooperação. Depois a luta é em casa, tentando criar novos valores, limites, comunicando, criando comunidades familiares autoapoiadoras. Depois, socialmente, no trabalho, com amigos se dispondo a gestos pequenos que possam beneficiar alguém, doando talento, tempo, empreendedorismo, o que for. Tenho alertado sempre que posso: quando o quarto da empregada pega fogo, a mansão inteira vira cinzas! Futuro é a única coisa que pode ser mudada, se o presente for sua matéria-prima!

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