Abuso de ousadia

Na contramão de novelas recentes, “Meu Pedacinho de Chão” leva a estética até as últimas consequências

iG Minas Gerais | geraldo bessa |

Atuações. Interpretação de Bruna Linzmeyer evidencia a preparação de todo o elenco da trama
Globo
Atuações. Interpretação de Bruna Linzmeyer evidencia a preparação de todo o elenco da trama

Espécie de retrato do cotidiano, a telenovela, aos poucos, foi investindo cada vez mais no naturalismo. Com isso, livrou-se de grande parte das influências do rádio e do teatro e foi ganhando linguagem e contornos próprios: mais simples, industrial e direta. A Globo foi peça fundamental nessa aproximação das tramas com a rotina e os costumes do público. E agora parece querer subverter o padrão estabelecido com a lúdica “Meu Pedacinho de Chão”, remake da obra de Benedito Ruy Barbosa, exibida originalmente em 1971 e atualizada pelo próprio. Na direção, está o experimental Luiz Fernando Carvalho, parceiro do autor em folhetins do quilate de “Renascer” e “O Rei do Gado”. A reunião da dupla por si só já evidencia que a emissora aposta no risco. Afinal, a assinatura de Benedito está longe da usual rapidez e tom raso de folhetins recentes. Enquanto Luiz Fernando é o elo artístico, pretensioso e expressivo dentro da Globo.

É claro que a retomada dessa parceria foi feita para criar atrito. Não no conteúdo, já que a trama tem as mesmas bases políticas de outros trabalhos do autor. Mas na forma. Ao mesmo tempo inspirada e exagerada, fica difícil enquadrar as inúmeras referências exploradas pela direção. Da cabeça de Luiz Fernando e do artista plástico Raimundo Rodriguez, que juntos criaram o universo de “Hoje é Dia de Maria” e “A Pedra do Reino”, “Meu Pedacinho de Chão” conversa de forma harmônica com o trabalho de cineastas díspares como Tim Burton e Akira Kurosawa, fazendo da cenografia da fictícia Santa Fé uma cidade em tons pastéis, onde o denso e o leve convivem com um nada usual desfoque de imagem, onde cores revelam personagens de composição e animais feitos de madeira. Tudo a favor da fantasia. A edição, inclusive, que entremeia cortes ora delicados, ora rápidos, valorizando imagens que abusam de closes nada óbvios.

O resultado, apesar de primoroso, soa cansativo. Afinal, depois de doutrinar tanto o público para uma estética realista, almejar a atenção da audiência para “Meu Pedacinho de Chão” parece uma atitude incoerente da emissora. Fora as ousadas opções estéticas, salta aos olhos a qualidade da atuação. As cerca de 12 horas de ensaios diários deram unidade ao elenco. Ao lado do sempre genial Osmar Prado, Juliana Paes cresce e mostra um desempenho acima do que costuma entregar. Bruna Linzmeyer e Johnny Massaro evidenciam que a preparação foi fundamental para a maturidade de suas atuações. Ousada, teatral e poética até demais, “Meu Pedacinho de Chão” tem tudo para ser inesquecível, mas também guarda ingredientes básicos para se tornar um retumbante fracasso de audiência.

Crônica

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