Para os fiscais de segurança, a mentira tem pernas longas

Precisão na hora de identificar casos ainda é fraca, dizem especialistas

iG Minas Gerais | John Tierney |

Testes. Durante estudos com voluntários, pesquisadores descobriram que as melhores dicas para descobrir uma mentira são verbais
Fotos Nadav Klein and Haotian Zhou/University of Chicago via The New York Times
Testes. Durante estudos com voluntários, pesquisadores descobriram que as melhores dicas para descobrir uma mentira são verbais

Nova York, EUA. Assim como todos nós, seguranças de aeroporto gostam de acreditar que são capazes de interpretar a linguagem corporal. A Administração de Segurança nos Transportes dos Estados Unidos (TSA), por exemplo, gastou mais de US$ 1 bilhão treinando milhares de “oficiais de detecção de comportamento” para avaliar expressões faciais e outras pistas não verbais que possam ajudar a identificar terroristas.  

Todavia, os críticos afirmam que não há evidências de que esses esforços tenham impedido sequer um terrorista, ou feito muito mais que incomodar os demais passageiros. A TSA parece estar sofrendo de uma forma clássica de autoenganação: a crença de que é possível ler a mente dos mentirosos por meio de seus corpos.

A maioria das pessoas acredita que os mentirosos se entregam ao desviarem os olhos ou fazerem gestos nervosos, e muitos policiais foram treinados para procurar tiques específicos, como olhar para cima ao contar uma história. Mas, ao longo de uma série de experimentos científicos, as pessoas tiveram um péssimo resultado na busca por mentirosos. Além disso, os agentes da polícia e outros supostos especialistas não são consistentemente melhores que as pessoas comuns.

“Existe uma ilusão de estarmos vendo algo a mais quando observamos a linguagem corporal de uma pessoa”, afirmou Nicholas Epley, professor de ciência corporal da Universidade de Chicago, nos EUA. “A linguagem corporal fala conosco, mas apenas em sussurros”.

Segundo uma pesquisa feita pelos psicólogos Charles F. Bond Jr. e Bella M. DePaulo em que foram analisados mais de 200 estudos, as pessoas identificaram os mentirosos corretamente em 47% das vezes, menos do que se tivessem sido escolhidos a esmo. Os voluntários tiveram um resultado melhor, 61%, ao identificarem quem falava a verdade. Contudo, a precisão era ainda menor quando eles não ouviam o que estava sendo dito e tinham que fazer o julgamento com base apenas na linguagem corporal da pessoa.

Fala. “O senso comum de que os mentirosos se revelam por meio da linguagem corporal parece ser pouco mais que ficção cultural”, afirmou Maria Hartwig, psicóloga da Faculdade John Jay de Justiça Criminal em Nova York. Os pesquisadores descobriram que as melhores dicas para descobrir uma mentira são verbais – mentirosos costumam ser menos diretos e contam histórias menos convincentes –, mas até mesmo essas diferenças geralmente são sutis demais para serem reconhecidas com clareza.

Uma técnica que foi ensinada para os agentes de segurança é observar quando os olhos se movimentam para o alto enquanto as pessoas falam. Isso se baseia em uma crença dos defensores da programação neurolinguística, segundo a qual as pessoas tendem a olhar para cima e para a direita quando estão mentindo, e para cima e para a esquerda, quando estão falando a verdade.

Entretanto, essa teoria não se manteve quando foi testada por uma equipe de psicólogos britânicos e dos EUA. Eles descobriram que não há um padrão coerente nos movimentos dos olhos de mentirosos e de pessoas que falam a verdade. Os pesquisadores também descobriram que pessoas treinadas para reconhecer esses movimentos não se saíram melhor do que o grupo de controle na detecção dos mentirosos.

“Não existe o nariz do Pinóquio – um indicativo que sempre ande de mãos dadas com a mentira”, afirmou Leanne ten Brinke, psicóloga da Universidade da Califórnia, nos EUA.

Capacidade

Além. Após experimentos na Universidade de Chicago, cientistas revelaram que as pessoas superestimam sua capacidade de ler mentes ao observar as expressões faciais de algum sujeito.

Situações condicionadas Leanne ten Brinke, psicóloga da Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos, e outros pesquisadores argumentam que pode ser possível detectar alguns tipos de mentiras por meio do treinamento de especialistas na busca de uma série de indicativos físicos. O especialista Stephen Porter, da Universidade da Colúmbia Britânica, localizada no Canadá, afirma que a falta de sucesso nos estudos sobre a identidade de mentirosos se deve às limitações dos experimentos nos laboratórios, durante os quais os envolvidos frequentemente são orientados a mentir sobre coisas que não são realmente importantes para os voluntários. Ou seja, de acordo com Porter, os mentirosos podem demonstrar mais estresse em uma situação da vida real, quando existem muito mais coisas em jogo por trás da mentira.

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