Nova sensação da literatura

Professor e estudioso de Machado de Assis, escritor José Luiz Passos acumula prêmios e elogios por sua produção

iG Minas Gerais |

EUA. José Passos mora há quase 20 anos nos EUA, onde leciona
Photographer: Tabach
EUA. José Passos mora há quase 20 anos nos EUA, onde leciona

São Paulo. Bem antes de ser um escritor premiado, José Luiz Passos já era célebre no meio universitário recifense. No final dos anos 1990, nos corredores do curso de ciências sociais da Universidade Federal de Pernambuco, muito se falava de sua “ascensão napoleônica”. Passos foi para os EUA em 1995, aos 24 anos, fazer pós-graduação. Em apenas três anos concluiu mestrado e doutorado e conquistou o posto de professor na prestigiosa Universidade da Califórnia (Ucla), em Berkeley.

Mas foi com sua carreira literária que Passos, 42, expandiu suas façanhas para um público bem mais amplo. Enquanto lança seu mais recente trabalho, uma reedição ampliada da coletânea de ensaios “Romance com Pessoas - A Imaginação em Machado de Assis”, ainda colhe os louros do anterior. Por seu segundo romance, “O Sonâmbulo Amador” (2012), o hoje professor de literaturas brasileira e portuguesa na Universidade da Califórnia conquistou espaço de relevo nas letras nacionais.

Na última quarta, venceu o Prêmio Brasília de Literatura. No final do ano passado já havia faturado outra honraria de prestígio, o grande prêmio Portugal Telecom de Literatura. Os críticos, em geral, não pouparam elogios ao livro. O doutor em teoria literária Alfredo Monte terminou assim uma resenha publicada na “Folha de S.Paulo” em janeiro do ano passado: “Eu até arriscaria a afirmar que se trata de uma obra-prima. Ainda é prematuro, reconheço, contudo fica a sugestão pairando no ar”. Pedro Meira Monteiro, professor de literatura brasileira na Universidade de Princeton (EUA), tece uma comparação de vulto. “Como os personagens de Machado, os de Passos são densos e fazem caminhos surpreendentes”.

“Esse reconhecimento me deu mais confiança”, conta Passos. “Eu tinha muito medo de ter feito tudo em vão. Escrever exige muito esforço e solidão. Você poderia estar numa praia, tomando uma cerveja, mas está ali, afastado de todos, perdido em si mesmo”. Passos gastou seis anos escrevendo seu primeiro romance, “Nosso Grão Mais Fino”. O segundo levou igual tempo, elaborado nas brechas entre a sala de aula e a dedicação à família.

Era tão discreto em sua produção ficcional que seus colegas professores ficaram surpresos ao saber que era também um romancista – e ainda dos bons. “Acho que a vida acadêmica ajuda muito na consciência da técnica. Não são atividades excludentes. Mas tem uma hora em que você não quer apenas narrar o gol, quer fazer o gol”. Passos chegou aos EUA há quase 20 anos, acompanhado da mulher, Raquel, sem grandes planos. Hoje com dois filhos pequenos, bem estabelecido nos EUA (Raquel é figurinista e professora), diz que não planeja voltar ao país. O Brasil, no entanto, não deixa de ser a ocupação primordial de Passos, seja como professor, seja nos romances.

Nos corredores do campus de Los Angeles, além da fama de prodígio (“foi o aluno mais brilhante que já tive a oportunidade de ensinar”, conta seu orientador de doutorado, Randal Johnson), carrega a de ser um professor bastante “sui generis” em relação aos demais. “Sou muito exigente com os alunos, mas também muito irônico, informal. Em geral as pessoas aqui têm muito pudor. O Randal diz que eu uso a piada como ferramenta pedagógica”, conta Passos. A verve do escritor foi bem perceptível na Flip do ano passado, na qual encantou a plateia com seus comentários mordazes. Mediando um dos debates, ameaçou atacar com spray de pimenta os que excedessem o tempo da fala.

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