Antigo sócio de Léo trazia notas fiscais de Contagem

Auditoria realizada em convênios celebrados entre a Secretaria de Assistência Social e a ONG Irmãos Glacus encontra impressos falsificados que contribuiram com rombo

iG Minas Gerais | Da Redação |

A Gráfica Irmãos Cunha Ltda, com sede no bairro Laguna, em Contagem, confirmou que notas utilizadas para cobrir parte das verbas que eram desviadas de convênio da Semas eram falsificadas, provavelmente elaboradas a partir da clonagem de impressos autorizados pela Receita Estadual.

Auditoria realizada por profissionais contratados pela prefeitura estimou em cerca de R$ 600 mil o valor em notas emitidas, somente através do convênio entre a Secretaria de Assistência Social (Semas) e o Núcleo Assistencial Irmãos Glacus.

Deste total, R$ 370.736,50 foram para a empresa de Adriana Clarindo da Silva, irmã de Carlos Alberto Clarindo, o Carlão, ex-locutor do prefeito Carlaile Pedrosa e também homem de confiança do ex-secretário da pasta, vereador Edson Leonardo Monteiro, o Léo Contador.

As notas serviam para cobrar gêneros alimentícios, que, segundo apurou a reportagem, não ocorriam com a qualidade e nas quantidades destacadas pelas cobranças.

Apesar de sua empresa receber da ONG, Adriana declarou desconhecer os fornecimentos, as notas fiscais e o recebimento de cheque emitidos em nome dela. A irmã de Carlão disse ainda que sua empresa só entrará em operação em maio de 2014.

A falsidade documental saltou aos olhos dos auditores pela desconformidade de caracteres e padrões gráficos entre as notas que constam da mesma autorização da Receita Estadual.

A reportagem procurou a gráfica Irmãos Cunha, na ultima terça-feira (8). Foi quando um dos proprietários da empresa, Anderson Gomes da Cunha, confrontado com várias cópias das notas fiscais de Adriana, confirmou a falsidade de parte dos documentos, dentre eles as notas de número 17 e 20. “Esses impressos não foram produzidos aqui”, afirmou ele, que ainda destacou que, na “clonagem”, os erros eram tão grotescos que até o nome da própria gráfica foi escrito de maneira errada. Ao invés de “Cunha”, o nome que a nota trazia era “Cinha”.

Para o empresário, os papéis que ele viu se tratam de falsificações produzidas em escritório de contabilidade.

Mais irregularidades

Além das irregularidades encontradas nas notas, outras inadequações foram percebidas pela auditoria. Para receber da prefeitura,as tomadas de preços, procedimento exigido por órgãos públicos para efetuar pagamentos, também foram montadas e realizadas por empresas que seriam “fantasmas”. Um segundo bloco de notas aumentaria ainda mais a possibilidade de rombos nos convênios. Os auditores estimam um valor médio de R$ 12 mil por nota emitido no segundo semestre de 2013 pela empresa Adriana.

Essa empresa, explicou o ex-controlador-geral do município, Robspierre Miconi, “não tinha outra atividade além da emissão de notas fiscais que se transformavam em pagamentos feitos por ONGs conveniadas com a Semas”.

“No caso de Irmãos Glacus, os desvios poderiam ser facilitados pela presença da esposa de Carlão, que tinha relação direta com a diretoria da entidade e que ajudava na a emissão dos cheques”, explicou.

O esquema se fecharia com pessoas protegidas e nomeadas pelo ex-secretário que, até então, mantêm atitude solidária com Carlão, apesar de indícios inapeláveis do esquema de desvio.

Carlão, durante a semana, deu sinais de impaciência e fez chegar ao gabinete do prefeito a sua insatisfação. Já Carlaile Pedrosa, até ontem, não tinha recebido Léo Contador nem Carlão.

A reportagem apurou também que a família de Léo Contador está sendo aconselhada a convencê-lo a renunciar ao mandato de imediato.

A maioria dos vereadores que foram consultados acha o mesmo. Entretanto, a reação de Léo Contador à possibilidade renúncia foi uma espécie de “ameaça velada”. De acordo com um vereador da base aliada, ele teria dito que “arrastaria a câmara inteira e o prefeito”.

Durante a semana,  o empresário do ramo de obras e ex-deputado Ciro Pedrosa, irmão do prefeito Carlaile Pedrosa, atuou como uma espécie de “bombeiro” para evitar que a CPI, proposta pela bancada do PT, fosse aprovada.

Ciro, segundo esse vereador, teria dito que o caso “deveria seguir para o Ministério Público para preservar a Câmara e o governo municipal”.

Por enquanto, a empreitada de Ciro está dando certo. Dos parlamentares que fazem parte da base governamental, apenas o vereador Vinicius Rezende (SDD) manteve assinatura favorável à CPI, o que fez ele sofrer represálias.

Para Robespierre Miconi, o trabalho de moralização da Semas estava apenas iniciando, quando, após o retorno do prefeito, em 21 de fevereiro, ele foi exonerado de forma sumária. “Auditamos apenas três convênios de 12 que estavam sob suspeita, porém, até agora, entregamos as análises de apenas um”, disse.

Para Miconi, os dados coletados até aqui podem servir como amostragem do tamanho dos desvios. O ex-controlador estima que, somente no convênio Socialização, cerca de R$ 1 milhão, de um total de R$ 1,6 milhão recebido pela ONG Irmãos Glacus, foi para outros fins. “Isso faz tocar o alarme e abrir uma terrível suspeita, pois  foram desviados recursos do combate a fome de crianças carentes”, disse.

“Se Carlaile não mover uma ação de recuperação do erário público, ele poderá ser considerado cúmplice. Porém, as atitudes mais recentes do prefeito o ligam e o amarram ao esquema”, disse. Segundo um dos auditores contratados, “restam poucas dúvidas sobre a existência das fraudes, que estariam remetendo a um escritório ou um profissional da área contábil”.

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